Vamos continuar, meus queridos, com o modelo de diálogo, porque é mais interessante que o antipático modo de apenas despejar informação.
Pergunto: O quê esta Festa comemora?
_ A Theofania.
_ O batismo de Cristo
_ Cristo tinha alguma necessidade de ser batizado?
_ Ele não tinha pecado...
_ Quem disse 'não', acertou. Mas quem disse que ''sim', acertou também. É uma Antinomia.
_ Ele assumiu a natureza humana. Essa natureza trazia a marca do pecado, era preciso purificá-la. Ao encarnar, sendo Deus, Ele santifica a carne, a natureza. Mas a pessoa, o ser interior que vive com um corpo, precisava também ser purificada. Mas isso é uma decisão que cabe a cada um.
_ Por isso ele santifica as águas? É para que nós pudéssemos utilizá-la?
_ Exato. Todo o sacramento necessita de um meio material. Ele não pode ser etéreo, abstrato. Ao contrário, ele precisa ser encarnado, materializado em algo. O sacramento é um ritual que transmite força espiritual, Graça. É algo imaterial que tem que passar por algo material.
_ Mas e o sacramento da penitência?
Também a confissão possui um meio material que serve de veículo para o derramamento da Graça. Primeiro, tem você e o sacerdote. O padre tem que ser alguém que entenda a sua língua para poder testemunhar. É preciso que o padre coloque a estola sobre a cabeça do fiel e diga uma formula sacramental. É preciso juntar a vontade de se arrepender (lembrar que o arrependimento na Tradição Ortodoxa tem o sentido de conversão e não de remorso) com a Vontade de Deus de lhe proteger e não deixar você cometer o mesmo erro.
_ Mas não é dito que a salvação já foi dada para todos?
_ Verdade. Na Palestra de Natal, foi dito que não era preciso fazer mais nada para salvar a natureza humana, porque, depois da Encarnação, tudo já foi feito. E o que falta é a adesão da vontade de cada pessoa. Da mesma forma, no batismo de Cristo, é a natureza humana que é batizada. O batismo de cada um de nós significou a nossa integração à natureza humana cristificada (unificada em Cristo). O batismo de cada um de nós é uma continuidade e uma re-atualização do Batismo de Cristo, que foi feito uma vez para todos. É nesse sentido que o batismo é a continuação da obra já realizada na Encarnação. É continuação no sentido de que a Theofania convida para o batismo, que é o caminho para nos unirmos ao Cristo.
A Theofania nos deixou o ritual do batismo como um caminho. Ela é também o início da vida pública de Cristo. Ele deixou transcorrer 30 anos para, no momento certo, iniciar a Sua vida pública com a inauguração desse ritual de ingresso na vida espiritual.
_O batismo d’Ele é para inaugurar o caminho?
Ele é o primogênito de Deus e, conseqüentemente, também da humanidade restaurada na Graça de Deus. Ele é o primeiro a santificar a carne, e será o primeiro a derrotar a morte. Ele vai ser o primeiro homem a subir aos céus. No Jordão, Ele santifica as águas, santifica a natureza e abre a porta para que todos possam encontrar a santidade. Ele é o primeiro a passar pela “porta”. Ele é a Porta. Depois vem a Virgem Maria. E, só após ela, vêm todos os homens e mulheres santificados e unidos no corpo místico de Cristo. O batismo é um rito de passagem: De um estado de natureza para um estado de santidade. Está tudo feito. Mas nós precisamos atualizar em nós mesmos a obra já realizada. Mas, se é preciso ‘atualizar’, isso significa que, apesar de “tudo feito”, ainda resta algo para cada um de nós fazermos. E que algo é esse? A Epístola a Tito, que é lida na preparação da Festa, nos dá a resposta.
11 Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens,
12 educando-nos para que, renunciando a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente,
13 aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus,
14 o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda
iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras.
Um parêntesis: A palavra renuncia é “mágica”. E, no entanto, deixa a maioria das pessoas incomodadas. Todo mundo acha que renunciar é perder. Mas, ao contrário, a renuncia é de fato o prolongamento e a vivência do mistério natalino. A renuncia é a chave de uma vida simples e espiritual. Ela é a nossa ascese. Ela é a simples constatação de que não é preciso ficar o tempo todo correndo atrás de excitações, prêmios, reconhecimentos, etc.
4 Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, 5 não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, 6 que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, 7 a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna.
Essa epístola parece uma continuação da conversa que tivemos no Natal. Para se levar uma vida feliz e na companhia de Deus, não se precisa de muita coisa. É só “ficar normal”. Se a pessoa é batizada e não comete grandes violências, nem contra si e nem contra os outros, basta ir levando a vida, que Deus a guardará e protegerá do Mal. Os pequenos pecados fazem parte do aprendizado necessário e inerente à realização plena da natureza humana. Mas isso não quer dizer que eles não tragam as suas próprias conseqüências. Eles trazem 'ressaca', trazem remorso, contas no vermelho, amores partidos. Mas também nos ensinam como é bom voltar para casa e para a misericórdia do Pai.
_Daí o sacramento de confissão?
_ É uma ingenuidade pensar que a vida em Igreja vai deixar a pessoa num estado em que ela não vai mais querer pecar. Nós não podemos cair na soberba de achar que a vida em Igreja retira o poder de atração que as satisfações do egoísmo e da vaidade são capazes de proporcionar. Nem vamos achar que, por sermos batizados, estamos protegidos de tudo. Isso já é tentar o senhor nosso Deus. É como, de carro, fazer uma curva em alta velocidade na crença de que estou sob proteção divina. Também não adianta dialogar com o pecado. Não adianta dizer para o demônio que você não o deixará entrar. Porque, nesse momento, você já está em entendimento com ele. E isso é tudo o que o adversário quer. Cair na situação de: “Não posso fazer isso”, "isso não é certo,” “Não posso me permitir cair nessa situação,” “ai que coisa horrível”. Quando se trava esse diálogo com o pecado, é grande a probabilidade (uma quase certeza) de que você não vai resistir. No mínimo, a atração pelo probibído vai se intensificar.
O “segredo” é não dialogar com o pecado e recorrer à Deus, pedindo que Ele não nos deixe mais pecar. É preciso ser sincero e reconhecer as próprias fraquezas e pedir perdão e proteção. Mas se você comete o erro, apesar das conseqüências ruins, a companhia de Deus permite que nós não fiquemos apenas no remorso. A companhia de Deus nos permite o arrependimento (conversão) e aprendizado. Com Deus nós sempre podemos retornar a casa do Pai. Mas o melhor é não fazer. Devemos colocar a oração, os salmos, ou os cânticos no lugar daquela idéia que está nos seduzindo.
_ Então é isso que o batismo nos dá?
_ Outra questão: A Theofania é um acontecimento público. Imaginem a cena: João, um profeta carismático que nunca pôs carne na boca. Ele é completamente casto, se veste apenas com uma pele de animal. Ele se alimentava do que Deus lhe dava no deserto: apenas mel e gafanhotos. Ele era duro e direto, por exemplo, ele disse para o próprio rei que era ilícito roubar a mulher do seu irmão. Corajoso, ele. Atrás de João havia uma multidão de pessoas dispostas a se converter pelo batismo, limpar a alma dos seus pecados. E, um dia, repentinamente, no meio da multidão, surge um homem com aparência normal, que se aproxima de João. Mas, como João era profeta, reconhece Jesus como o Cristo que ele próprio vinha anunciando. João batizava com água para lavar os pecados. Mas, também, anunciava que Outro viria para batizar no fogo do Espírito Santo. E, no meio da multidão, João clama que não é digno de batizar aquele Homem de aparência comum. Mas Cristo responde a João que era necessário fazer aquilo. E Cristo que não tinha pecados, apesar de ser um verdadeiro homem, deixa-Se batizar, para, dessa forma, purificar toda a humanidade e todo o universo material. E neste momento, o céu abriu-se e Deus Pai Se manifestou em voz que dizia:... Este é o meu filho amado em quem me comprazo. E o Espírito Se manifestou sob a forma de pomba. E a Pessoa do Filho é revelada na Sua humanidade assumida pela Encarnação. E toda a multidão presenciou esse fenômeno, essa Theofania. Essa palavra que dá nome a Festa significa exatamente manifestação de Deus. E tudo aconteceu sob os olhos de uma multidão que, É claro, espalhou o que viu.
Agora atentem. Antes da Theofania, Deus só se manifestara por meio de “Mensageiros”. Quando Moisés se aproxima da Sarsa ardente, ele ouve uma voz que manda ele se descalçar, porque o solo que ele estava pisando era sagrado. Mas essa Sarsa ardente não era o Deus em si, porque Deus não é simples fogo. A Sarça ardente seria um Serafim, já que fogo é a natureza do Serafim. Deus comunica Sua vontade através de um Mensageiro, mas contendo-Se na medida em que este Serafim pode transmitir a presença de Deus. Mas a Epifania (epifania quer dizer manifestação) de Deus se dá principalmente na Voz que sai da Sarça ardente, mas que vêm através do fogo, um Serafim. As manifestações de Deus, antes da Encarnação do Verbo, se dão sempre através de intermediários angélicos. Pois, se o Deus Se manifestasse na plenitude de Sua natureza supra-substancial, todo o universo seria consumido pela presença divina. No entanto, no Natal, Deus se apresenta sem intermediários, como um verdadeiro bebê humano. Toda a vida de Jesus é uma permanente Theofania, mas é preciso um certo amadurecimento espiritual para poder ver isto. Na Transfiguração, a Glória de Deus se torna visível na medida do corpo humano glorificado. Mas só três Apóstolos participam dessa revelação. Na Transfiguração, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade Se manifesta, mas ainda na medida das possibilidades da natureza humana glorificada.
Situação diferente é a da Theofania. Nela, a epifania se dá de uma forma possível de ser percebida por toda a multidão presente, mas que foi anteriormente preparada por João. Nela, as Três Pessoas Se manifestam simultaneamente, revelando, pela primeira vez, a Santíssima Trindade. O caráter Pessoal de Deus Se revela como Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, mas de uma maneira que todos puderam ver.
_ Estão percebendo que há algo mais, além do aspecto de salvação, no batismo de Cristo? Ouçam:
Senhor, em Teu Batismo no Jordão, foi revelada a adoração devida à Trindade, pois a voz de Deus Pai deu testemunho de Ti, chamando-Te Filho Bem-amado. E o Espírito, sob a forma de pomba, confirmou este testemunho inabalável. Ó Cristo nosso Deus, que apareceste entre os homens e iluminaste o mundo, glória a Ti!
_ Tem a revelação de um Mistério.
_ O que os Patriarcas e Profetas do Antigo Testamento viam, era sempre uma Potestade, um Principado. Sempre havia um Serafim, um Querubim, um Anjo, etc.
Na Theofania, Deus Se apresenta em Sua trina pessoalidade diante de sua Criatura. Ele não é mais apenas a Voz que diz: Escuta meu povo... Na Theofania, Deus Se revela como Santíssima Trindade, que chama o homem para um diálogo e para uma comunhão espiritual, abrindo um Caminho pelo Batismo, pela água santificada pelo Espírito Santo. É o batismo pelo fogo que não anula o batismo pela água. É nesta Festa que, pela primeira vez, Ele Se revela como Tri-unidade.
A Theofania faz do batismo um ritual de passagem muito mais sério e profundo do que a purificação da alma e do corpo pela água. Nós precisamos sair da atitude egoísta que considera apenas a limpeza dos pecados individuais. O batismo representa mais do que isso. Ele representa a passagem do homem que dialoga com o mundo da natureza, para o homem que passa a dialogar com as Pessoas divinas. O batismo é uma preparação para o diálogo com o mundo espiritual. A Theofania é uma manifestação definitiva da filantropia, ou seja, do desejo divino de dialogar com a criatura. O batismo não é uma coisa particular. Ele representa o nosso ingresso na natureza humana unificada em Cristo.
1 Odeserto e os lugares secos se alegrarão com isso; e o ermo exultará e florescerá como a rosa. 2 Abundantemente florescerá e também regurgitará de alegria e exultará; a glória do Líbano se lhe deu, bem como a excelência do Carmelo e de Sarom; eles verão a glória do SENHOR, a excelência do nosso Deus. 3 Confortai as mãos fracas e fortalecei os joelhos trementes. 4 Dizei aos turbados de coração: Esforçai-vos e não temais; eis que o vosso Deus virá com vingança, com recompensa de Deus; ele virá, e vos salvará. 5 Então, os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. 6 Então, os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará, porque águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. 7 E a terra seca se transformará em tanques, e a terra sedenta, em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos. 8 E ali haverá um alto caminho, um caminho que se chamará O Caminho Santo; o imundo não passará por ele, mas será para o povo de Deus;; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão. 9 Ali, não haverá leão, nem animal feroz subirá a ele, nem se achará nele; mas os remidos andarão por ele. 10 E os resgatados do SENHOR voltarão e virão a Sião com Júbilo; e alegria eterna haverá sobre a sua cabeça; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido.
E que caminho é esse que a profecia descreve? A profecia faz a descrição de um mundo novo. Onde não tem fera, não tem coxo, não tem violência. Ela fala de águas e de um caminho. Quando um cristão se batiza, ele torna-se um soldado de Cristo. E o inimigo n° 1 desse soldado do Espírito e do Verbo é ele próprio. O caminho da vitória é a renuncia que a epistola menciona. Na luta contra as medíocres satisfações do ego e da vaidade, a renuncia é a arma eficaz. A renúncia é a passagem para um universo místico. Com a renuncia o mundo deixa de ser apenas um lugar de competição, onde se tem que “ralar” todos os dias. A competição predatória não precisa ser a essência do nosso dia. O batismo é o ingresso num Caminho, o Caminho é Cristo, viver o Caminho é renunciar ao espírito do mundo.
Na Festa da Theofania, nós revivemos e atualizamos o nosso próprio batismo junto com o batismo de Cristo. É sempre uma nova chance de reencontrarmos o verdadeiro Caminho para um mundo novo.
Antes de Deus criar o mundo material, Ele criou o mundo das Hierarquias angélicas. Quando Deus cria a matéria, Ele cria uma completa alteridade, um outro. Mas Deus chama esse outro a participar ativamente da Sua Criação. A resposta a esse chamado é o surgimento da vida. E, então, Deus chama tudo que é vivo para um diálogo com o Verbo divino. E, como resposta a esse chamado divino, surge o homem, como ser racional capaz de dialogar com Deus. Através do homem, a vida espiritual se estende ao mundo todo e a Terra se torna o Paraíso. Em resposta ao chamado do Criador, o homem surge como um “vaso” capaz de ser preenchido pela espiritualidade. E o destino desse homem é um dia ter sua natureza assumida e glorificada por Deus. Coisa possível a partir da encarnação do Verbo. O destino dessa humanidade é se tornar o templo vivo do Espírito Santo. Agora possível para aqueles que enveredam pelo Caminho aberto na Theofania.
Mas, em sua liberdade, o homem dá as costas a Deus e se enche de vaidade e egoísmo. Em vez de vaso e veículo de espiritualidade, que eleva o mundo ao Paraíso, ele se torna o predador do mundo e de si mesmo. Ele reduz o próprio desejo espiritual a mero apetite animal. As energias de Deus continuam presentes na natureza, conforme a capacidade que os seres possuem de recebê-las. Mas, com a recusa do homem, a Graça e a Glória de Deus, que descem ao mundo por intermédio das Hierarquias angélicas, não são recebidas pelo mundo. Pois a porta de entrada, que é o próprio homem, encontra-se fechada pela vontade humana. Nessa situação, a Graça permanece exterior ao homem e ao mundo. Mas Deus não desiste da humanidade, de modo que os Anjos não deixam de continuar a dialogar com os poucos homens e mulheres que se mantêm minimamente receptivos. Desse dialogo, por exemplo, surge a aliança com Abrahão. De Abrahão surge o povo da antiga aliança. Do povo da Antiga aliança surge a Virgem Maria, que dá o ‘Sim’ humano à encarnação do Verbo.
Com o Natal, tudo muda. A encarnação do Verbo derruba a barreira que separava o espiritual do material. E o coração do próprio homem torna-se o lugar da comunhão com Deus. A natureza humana é salva, mas é preciso a adesão das pessoas por meio da vontade de cada um. E a Theofania aponta o caminho para que as pessoas se tornem íntegras com a natureza humana cristificada. O batismo de Cristo apresenta o próprio Cristo como ‘o Caminho’.
Para concluir, a Festa da Theofania é a possibilidade de participarmos de um ritual de passagem, passagem para um mundo novo e místico. Atualização do sacramento do batismo, que é morte (=renuncia) e ressurreição com Cristo.