Eparquia Ortodoxa do Brasil

Theofania: o significado da Festa

Theofania (6 de Janeiro, pelo calendário litúrgico). Na tradição oriental esta festa celebra o batismo de Nosso Senhor na Jordão, e não a adoração dos Reis Magos. O padrão geral dos ofícios é o mesmo que no Natal, com a especial paramoni (véspera) e a leitura das Horas Reais em 05 de janeiro, o que é observado com um rigoroso jejum. A Theofania é marcada, no entanto, por uma cerimônia diferente, não realizada no Natal - o Grande Batismo das Águas. Esta é realizada duas vezes, em 05 de janeiro após a Liturgia, e em 6 de Janeiro, no final das Matinas ou (com mais frequência) depois da Liturgia. A primeira benção é realizada dentro da igreja; a segunda, se possível, ao ar livre, ao lado de um rio ou nascente, ou à beira do mar. Nos países onde o inverno é de extrema severidade, buracos são cavados no gelo dos rios congelados. Em anos recentes na Inglaterra, os Gregos têm estabelecido o costume de abençoar o mar em Margate, com o bispo presente e grande números de clérigos. O momento culminante nesta cerimônia ocorre quando o celebrante oficial mergulha, ou joga, a Cruz três vezes na água, recordando assim a tripla imersão de Cristo no Jordão, assim como a tripla imersão que todo Cristão Ortodoxo sofre em sua própria iniciação batismal. Antes que a frase 'Grande Batismo das Águas’ seja mal interpretada, deve imediatamente ser enfatizado que o batismo é realizado, não pelo sacerdote oficiante e o povo que está orando com ele, mas pelo próprio Cristo, que é o verdadeiro celebrante neste e em todos os mistérios da Igreja. É o Cristo quem abençoou as águas uma vez por todas em Seu batismo no Jordão: a cerimônia litúrgica do batismo é uma simples extensão do ato original de Cristo. Este é um ponto de primeira importância, que deve ser logo esclarecido.

O significado básico da Festa pode ser inteiramente resumido em seu título Epifania, ‘manifestação’, ou mais especificamente Theofania, ‘manifestação de Deus’. O batismo de Cristo no Jordão é uma manifestação de Deus no mundo, em primeiro lugar, configura o início do ministério público de Nosso Senhor; mas em segundo lugar, e num sentido mais profundo, neste batismo foi concedido ao mundo uma revelação da Santíssima Trindade. Todas as três Pessoas tornam-se manifestas juntas: o Pai testemunha, do alto, à filiação divina de Jesus; o Filho recebe o testemunho de Seu Pai; e o Espírito Santo é visto na forma de uma pomba, descendo do Pai e pousando sobre o Filho. Esta revelação tríplice é o assunto do tropário da festa:

Senhor, em Teu Batismo no Jordão foi revelada a adoração devida à Trindade, pois a voz de Deus Pai deu testemunho de Ti, chamando-Te Filho Bem-amado e o Espírito, sob a forma de pomba, confirmou este testemunho inabalável! Ó Cristo nosso Deus, que apareceste entre os homens e iluminaste o mundo, glória a Ti.

Este tema da ‘manifestação’ ou ‘revelação’ é expresso, em particular, sob o simbolismo da luz: nas palavras do tropário, que acabamos de citar, Cristo ‘apareceu e iluminou o mundo’. Assim, além do título ‘Theofania’, 6 de Janeiro é conhecido também como a ‘Festa das Luzes’. A Igreja celebra neste dia a iluminação do mundo pela luz de Cristo: ‘Luz da Luz, Cristo nosso Deus fez brilhar no mundo, Deus tornado manifesto’ (Matinas da festa, primeira estikéria em Laudes); ‘Tu trouxeste luz para todas as coisas por Tua Epifania’ (Matinas da festa, ypakoe) ; Vós, os que se encontram em trevas, pulem de alegria, pois, agora, uma grande luz apareceu para vocês. (Matinas em 5 de Janeiro, Nono Canone).

Manifestação, iluminação – com essas duas idéias segue uma terceira: renovação, regeneração, re-criação. O batismo de Cristo no Jordão renova nossa natureza, pois ele é o prelúdio de nosso batismo na fonte; e ele renova e regenera, não apenas a nossa natureza humana, mas toda a criação material.

Para entender esta idéia de renovação, é útil começar por fazer uma pergunta que é, de fato, colocada repetidamente nos textos para a festa. Por que Cristo foi batizado? Nós somos batizados porque somos pecadores: nós descemos sujos para a água, e saímos limpos. Mas que necessidade tem Cristo, que é sem pecado, de receber o batismo no Jordão? A isso, o texto litúrgico responde: ‘Embora como Deus, não precisa-se de purificação, pelo bem do homem decaído, Ele foi lavado no rio Jordão’ (Matinas da festa, primeiro Canone, Quinto Cântico); ‘Como homem Ele é lavado para que eu também possa ser purificado’ (Completas em 5 de Janeiro, Canone, Primeiro Cântico); Para o bem do homem pecador: na verdade, não é Ele quem é limpo no Jordão, e sim nós mesmos. Ao assumir a humanidade em Sua Encarnação, Nosso Senhor assumiu um papel de representante: E tornou-se o Novo Adão, resumindo toda a raça humana em si mesmo, assim como o primeiro Adão resumia e continha toda a humanidade em si mesmo na Queda. Na cruz, embora sem pecado, Jesus Cristo sofreu e morreu pelos pecados de toda a humanidade, e da mesma forma, em Seu batismo, embora sem pecado, Ele foi purificado por todos os pecados dos homens. Quando Ele desceu para o Jordão, como o Novo Adão, Ele levou a nós, homens pecadores, para baixo com ele: e lá nas águas, Ele nos limpou, tendo cada um de nós emergido do rio como uma nova criatura, regenerada e reconciliada.

No batismo de Cristo, pelas mãos de João, a nossa própria regeneração batismal é já realizada por antecipação. As muitas celebrações da Eucaristia são todas uma participação na singular e única ‘Última Ceia’; de modo similar, todos os batismos individuais são uma participação no batismo de Cristo - eles são os meios pelos quais a graça do Jordão é estendida, para que possa ser apropriada, pessoalmente, por cada um de nós. Como uma indicação da conexão estreita entre o batismo de Cristo e do batismo dso cristãos, pode-se notar que a oração na Grande Bênção das Águas na Theofania é quase idêntica à oração da bênção sobre a fonte, no sacramento do batismo.

Mas a imersão de Cristo no rio, ainda tem mais um significado. Quando Cristo desceu sob às águas, não só nos levou com Ele e tornou-nos limpos, como também purificou a natureza das próprias águas. Como o tropário da ante-festa coloca: ‘Cristo apareceu no Jordão para santificar as águas’. A festa da Theofania tem um aspecto cósmico. A queda das ordens angélicas, e, depois dela, a queda dos homens, envolveu o universo inteiro. Toda a criação de Deus foi assim deformada e desfigurada: no simbolismo dos textos litúrgicos, as águas se tornaram um "covil de dragões". Cristo veio a Terra para resgatar não somente um homem, mas – por meio do homem – toda a criação material. Quando Ele entrou na água, além de efetuar por antecipação nosso renascimento na fonte, Ele também efetuou a limpeza das águas, transfigurando-a em um órgão de cura e graça.

Se a água actua como um meio de graça preeminentemente no sacramento do batismo, ela também é usada como um meio de santificação em muitas outras ocasiões. É por isso que os ortodoxos são incentivados a beber da água que foi abençoada na Theofania e a polvilhar-se com ela. E a levá-la e a mante-la em suas casas, para usar de tempos em tempos. Em tudo isso, eles não são culpados de supertição. Se eles agem assim, isso é porque eles estão convencidos que em virtude da Encarnação de Cristo, de Seu Batismo e Transfiguração, todas as coisas podem tornar-se santificadas e espiritualizadas. ‘No Teu aparecimento no corpo, a terra foi santificado, as águas abençoadas, o céu iluminado’ (Completas em 5 de Janeiro, Canone, Cântico Quatro). Isso, então, é parte do significado da Theofania: aos olhos de quem é cristão, nada deveria parecer trivial ou ordinário, a graça redentora e transformadora do Salvador se estende para todas as coisas, inclusive para as aparentemente desprezíveis. Na Theofania existe a mesma ênfase que no Natal, sobre o auto-esvaziamento de Cristo, ou seja, sobre o contraste entre a glória interior, que enquanto Deus Ele nunca deixou de possuir, e toda a Sua humildade enquanto homem. Deus por natureza, em Sua auto-humilhação, Ele não recusou o batismo de João: ‘Como um servo Tu curvaste Tua cabeça abaixo da mão do servo’. (Completas em 5 de Janeiro, Canone, Cântico Um); ‘Um da Trindade curvou Sua cabeça e recebeu o batismo’ (Matinas da festa, Primeiro Canone, Cântico Nono); Para enfatizar esse ponto mais vividamente, constantes referencias são feitas ao espanto e a hesitação de João Batista: ‘O Precursor foi tomado de tremor e clamou em alta voz, dizendo: ‘Como poderá a lâmpada iluminar a Luz? Como poderá o servo colocar a sua mão sobre o Mestre? O Salvador, que tira o pecado do mundo, santifica tanto a mim quanto às águas’ (Benção das Águas). Este tema é especialmente desenvolvido no dia seguinte a festa, que é observado como o Synaxis de São João Batista.

Trecho do texto ‘The Background and Meaning of the Feasts’ incluso no livro ‘The Service Books of the Orthodox Church’.

Traduzido por Lucas Mesquita.