Ícones do Batismo do Senhor são uma exata reprodução do Evangelho das Matinas da Festa (Mc. 1: 1-9) mesclado com alguns detalhes correspondentes ao serviço divino do dia. A Festa do Batismo é também chamada Epifania, pois que o Batismo é a manifestação da divindade de Cristo, quando abertamente dá início ao Seu serviço público para redenção/salvação do mundo.
No ícone, o fundo consiste em rochas montanhosas e uma escura parte central representando as águas do Jordão, muito semelhante à bocada gruta do ícone do Nascimento e também ao túmulo escancarado do ícone da Descida dos Infernos. Cristo aparece de pé, nu no Jordão, com Sua mão direita erguida, abençoando as águas.
À esquerda, São João Batista (conhecido como ‘o Precursor’ na Tradição Ortodoxa) coloca sua mão direita sobre a cabeça de Cristo. Este é um gesto sacramental que vai inspirar a Igreja no ritual do Batismo e na Imposição das mãos (Hirotonia). Em sua mão esquerda, ele traz, por vezes, um pergaminho (símbolo de sua pregação) ou está em oração, apontando Aquele que batiza... “ não sou digno de tocar Tua puríssima cabeça; santifica-me a mim, ó Senhor, pela Tua divina manifestação”. Alguns ícones incorporam cenas adicionais do Batista pregando e batizando, e em alguns casos vemos um machado à raíz de uma árvore (Mt. 3: 10; Lc. 3:9).
À direita, alguns Anjos (normalmente três) participam do mistério. Textos dos serviços divinos mencionam sua presença, mas não falam, com exatidão, de seu papel. Por esta razão, geralmente o entendemos e representamos de diferentes maneiras. Às vezes, em ícones mais tardios, eles seguram roupas em suas mãos, evidentemente, prontos a cobrir o corpo do Senhor que sai da água. Mas de acordo com a regra e na representação de ícones de outras Festas também, seu papel de serviço é meramente indicado (e sub-entendido). Eles estão representados com as mãos cobertas por suas próprias roupas, sinal de reverência diante d´Aquele que servem 1.
Na parte superior do ícone existe um segmento de círculo simbolizando a abertura dos Céus fechado por “Adão e seusdescendentes, ao deixar o Jardim do Éden” 2. Este segmento de círculo significa a presença de Deus, por vezes enfatizada por uma mão abençoando. De lá emanam sobre o Salvador raios de luz, com o Espírito Santo descendo na forma (corpórea) de uma pomba. Lamentavelmente, este (o mais) importante detalhe, foi perdendo com o tempo seu significado no contexto do ícone. Geralmente representado da mesma maneira que o Nascimento de Cristo, com a pequena diferença de a pomba tomar a forma de estrela 3.
Os Santos Padres da Igreja explicam a aparência do Espírito Santo na forma de pomba no Batismo do Senhor pela analogia com o Dilúvio: assim como outrora o mundo é purificado de suas iniquidades pelas águas, com a pomba trazendo o galho de oliveira à Arca de Noé, e anunciando tanto o fim do Dilúvio como o retorno da paz sobre a terra, agora o Espírito Santo desce na forma de uma pomba, para anunciar a remissão dos pecados e a misericórdia de Deus ao mundo. “Lá um galho de oliveira, aqui a misericórdia de Deus”, diz São João Damasceno.
O ícone do Batismo traz muitas analogias com prefigurações do Antigo Testamento. Desta forma, além daquelas já mencionadas, duas pequenas figuras são geralmente representadas aos pés do Salvador, dentre os peixes a nadar nas águas do Jordão. Uma delas é a de um homem, nu, de costas para Cristo; a outra é a de uma mulher, semi-nua, frequentemente fugindo. Estes detalhes ilustram textos do Antigo Testamento que tem parte no serviço divino da Festa e são uma prefiguração profética do Batismo. “O mar viu isto e fugiu; o Jordão tornou atrás” - Sl. 113 (114), 3. A figura masculina – uma alegoria do Jordão – é explicada pelas palavras do Tropário da Paramonia (Vigília Maior) da Teofania: Outrora o Jordão recuou ao contato com o manto de Eliseu, depois da ascensão de Elias, e as suas águas separaram-se em duas partes. A água tornou-se estrada firme, verdadeira figura do Batismo, pelo qual nós fazemos a travessia desta vida flutuante. Cristo veio ao Jordão para santificar as águas. A figura feminina é uma alegoria do mar (em grego Thalassa) e refere-se à outra prefiguração do Batismo – a passagem do Mar Vermelho pelos Judeus (o povo eleito).
Ambas imagens ajudam a interpretar o Batismo de Cristo como a abertura de um caminho (de vida nova) através das águas (instáveis e turbulentas) do mar deste mundo – a frequente passagem pelo Mar Vermelho. A figura de Cristo em oposição / contra as águas, evocando o simbolismo tanto da morte como da vida, lembra-nos que o caminho para uma vida nova se faz através de (sua) morte.
1 – A reverência a algo sagrado é geralmente expressa na Iconografia pelo “cobrir as mãos” das pessoas que seguram objetos sagrados. Desta forma, Bispos, por exemplo, quase sempre trazem o Evangeliário em suas mãos cobertas, Anjos – os instrumentos da Paixão do Senhor... Este método foi tomado a partir de um costume oriental, também adotado pela etiqueta da coorte em Bizâncio, quando objetos para o Imperador ou aceitos por ele eram segurados por mãos cobertas, como um sinal de respeito especial.
2 – São Gregório o Teólogo.
3 – Mediante a representação do Espírito Santo sob a forma de pomba em outros ícones, como por exemplo na Descida do Espírito Santo nos Apóstolos e particularmente na Anunciação, populares no século XVII, o Grande Concílio de Moscou (1667) dá as seguintes explicações: “O Espírito Santo não é em Sua essência uma pomba, mas Deus...No santo Batismo de Cristo no Jordão o Espírito Santo aparece na forma de uma pomba, e doravante neste contexto somente pode o Espírito Santo ser representado como uma pomba. Mas em outros contextos não se deve representar o Espírito Santo como uma pomba. No Monte Tabor, Ele aparece como uma nuvem, e em outro tempos, de outras formas.” (Actas do Concílio de Moscou, 1666-1667, Moscou, 1893).