Eparquia Ortodoxa do Brasil

Sobre a vigilância e a santidade, Escrita para Theodoulos

Santo Hesíquio, o Sacerdote

1. A vigilância é um método espiritual que, se diligentemente praticado por um longo período, nos libera completamente, com a ajuda de Deus, dos pensamentos e palavras passionais e das más ações. Ele leva, até onde é possível, a um conhecimento seguro do Deus inapreensível, e nos ajuda a penetrar os mistérios ocultos e divinos. Torna-nos aptos a cumprir cada mandamento divino nos Velho e Novo Testamento e nos agracia com cada benção do século vindouro. É, em um sentido verdadeiro, pureza do coração, um estado abençoado por Cristo quando Ele diz: ''Bem aventurados os puros de coração, pois eles verão a Deus'' (Mateus 5:8), e que, por sua nobreza espiritual e beleza -- ou antes por causa de negligência -- é hoje extremamente raro entre os monges. Por ser esta a sua natureza, a vigilância é adquirida apenas a um grande preço. Mas uma vez estabelecida em nós, nos guia para um meio de vida santo e verdadeiro. Nos ensina como ativar corretamente os três aspectos de nossa alma, e como manter uma firme guarda sobre os sentidos. Promove o crescimento diário das quatro principais virtudes, e é a base de nossa contemplação.

2. O grande legislador Moisés -- ou melhor, o Espírito Santo -- indicou o caráter puro, abrangente e enobrecedor desta virtude, e nos ensinou como adquiri-la e aperfeiçoá-la, quando disse: ''Tenha atenção a ti mesmo, para que não surja no teu coração alguma coisa secreta que seja iníqua'' (Deut. 15:9. LXX). Aqui, a frase ''uma coisa secreta'' se refere em primeiro lugar ao aparecimento do mau pensamento [logismoi]. Os Padres chamam a este aparecimento de uma provocação introduzida no coração pelo diabo. Logo que este pensamento aparece em nosso Intelecto, nossos próprios pensamentos o seguem e entram em um intercurso apaixonado com ele.

3. A vigilância é uma via que abrange toda virtude, todo mandamento. É o silêncio do coração e, quando livre de todas as imagens mentais, é a guardiã do Intelecto.

4. Assim como um homem cego de nascença não pode ver a luz do sol, assim também aquele que falha em alcançar a vigilância não consegue ver a rica radiação da graça divina. Ele não consegue se livrar dos maus pensamentos, palavras e ações, e por causa destes não se tornará capaz de ter livre passagem pelos senhores do inferno quando morrer.

5. A atenção é a quietude do coração, inquebrantável por qualquer pensamento. É nesta quietude que o coração respira e invoca, sempre e sem cessar, somente a Jesus Cristo, que é o Filho de Deus e Deus. Confessa-se a Ele, que tem o poder de perdoar nossos pecados, e com Sua ajuda encara corajosamente seus inimigos. Através desta invocação realizada continuamente em Cristo, que secretamente conhece todos os corações, a alma deve fazer tudo ao seu alcance para manter sua doçura e sua luta interior oculta dos homens, para que o demônio, sub-repticiamente, não o leve ao mal e destrua seu trabalho precioso.

6. A vigilância é contínuo fixar e travar do pensamento [logismoi] na entrada do coração. Desta maneira, os pensamentos assassinos e predatórios ficam marcados logo que se aproximam, e o que eles dizem e fazem não é levado em conta; e conseguimos ver as maneiras delusivas e capciosas com que os demônios tentam enganar o Intelecto. Se estivermos conscientes disto, podemos ganhar bastante experiência e conhecimento na luta espiritual.

7. Naquele que busca barrar a fonte dos maus pensamentos e ações, a contínua atenção vigilante no Intelecto tem por causa o medo do inferno e o temor a Deus, a ausência de Deus na alma, e a chegada de provas que castigam e instruem. Pois estes afastamentos e provas inesperadas nos ajudam a corrigir nossas vidas, especialmente quando, tendo já experimentado a tranquilidade da vigilância, a negligenciamos. A continuidade da vigilância produz estabilidade interior; a estabilidade interior produz uma intensificação natural da vigilância; e esta intensificação gradualmente, e em uma medida justa, leva à intuição contemplativa na luta espiritual. Isto se sucede pela persistência na Oração de Jesus, e pelo estado conferido por Jesus no qual o Intelecto, livre de todas as imagens, se deleita em quietude completa.

8. Quando a mente, se refugiando em Cristo e clamando por Ele, permanece firme e repele seus inimigos invisíveis, como uma fera selvagem encarando uma matilha de cães em uma boa posição de defesa, então interiormente antecipa as emboscadas [dos demônios] com bastante antecedência. Através da contínua invocação contra eles de Jesus, o pacificador, permanece invulnerável.

9. Se você é um adepto, iniciado aos mistérios e permanece diante do Senhor desde o amanhecer (cf. Sl. 5.3), perceberá o sentido de minhas palavras. Senão, esteja atento e virá a descobrir.

10. A abundância de água faz o mar. Mas a atenção extrema e a Oração de Jesus Cristo, imperturbável pelos pensamentos, são a base necessária para a vigilância interna e o silêncio insondável da alma, para as profundezas do segredo e da contemplação solitária, para a humildade que conhece e discerne, para a retidão e o amor. Esta vigilância e esta Oração devem ser intensas, concentradas e perseverantes.

11. Está escrito: ''Nem todo aquele que me diz: 'Senhor! Senhor!' entrará no Reino dos Céus; mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai'' (Mateus 7:21). A vontade do Pai está indicada nas palavras: ''Vós, que amais o Senhor, odiai o mal'' (Sl. 97:10)t. Assim devemos ao mesmo tempo orar a Oração de Jesus Cristo e odiar nossos maus pensamentos. Desta maneira fazemos a vontade de Deus.

12. Através de Sua encarnação, Deus nos deu o modelo para um vida santa e nos chamou de volta da nossa queda ancestral. Ele nos ensinou, débeis que somos, que devemos lutar contra os demônios com humildade, jejum, oração e vigilância. Pois quando, após o Batismo, o Senhor foi ao deserto e o diabo o perseguiu como se Ele fosse apenas um homem, Ele começou Sua luta espiritual pelo jejum e venceu a batalha por estes meios -- ainda que, sendo Deus, e Deus dos deuses, não tivesse necessidade de meio algum.

13. Devo agora contar em linguagem franca e direta o que considero serem os tipos de vigilância que gradualmente purificam o Intelecto dos pensamentos apaixonados. Nestes tempos de guerra espiritual, não quero velar sob palavras neste tratado o que pode ser de utilidade, especialmente para os mais simples. Como São Paulo colocou: ''Fique atento, meu filho Timóteo, ao que você lê.'' (cf. 1 Tim. 4:13).

14. Um tipo de vigilância consiste em analisar detidamente cada imagem ou provocação mental; pois somente por meio de uma imagem mental Satã pode fabricar um mau pensamento e insinuá-lo ao Intelecto de modo a perdê-lo.

15. Um segundo tipo de vigilância consiste em libertar o coração de todos os pensamentos, mantendo-o profundamente silente e quieto, em oração.

16. Um terceiro tipo consistem em contínua e humildemente pedir ajuda a Jesus Cristo.

17. Um quarto tipo é sempre ter em mente a lembrança da morte.

18. Estes tipos de vigilância, meu filho, agem como guardiões e barram a entrada de maus pensamentos. Em outro lugar, se Deus me der palavras, lidarei mais plenamente com um tipo a mais que, assim como os outros, é também efetivo: consiste em fixar a contemplação nos céus e não prestar atenção a nada que seja material.

19. Quando tivermos em algum grau arrancado as causas das paixões, devemos devotar nosso tempo à contemplação espiritual; pois se falharmos nisso facilmente reverteremos às paixões carnais, e então não atingiremos nada além do completo obscurecimento de nosso Intelecto e sua volta às coisas materiais.

20. O homem engajado na guerra espiritual deve possuir ao mesmo tempo humildade, atenção perfeita, capacidade de repudiar, e a oração. Ele deve possuir humildade porque, como sua luta é contra os demônios, terá assim a ajuda de Cristo em seu coração, pois o ''Senhor odeia o arrogante'' (cf. Prov. 3:34. LXX). Ele deve possuir atenção de modo a sempre manter seu coração livre de todos os pensamentos, até mesmo daqueles que parecem ser bons. Ele deve possuir poder de repudiar de modo que, sempre que reconheça o diabo, possa de uma vez afastá-lo com ira; pois está escrito, ''E eu replicarei àqueles que me vilipendiam; não estará minha alma sujeita a Deus?''' (Pss. 119:42; 62:1. LXX). Ele deve possuir oração de modo que logo que repudie o diabo possa clamar a Cristo com ''gemidos inefáveis'' (Rom. 8:26). E verá o diabo quebrado e, direcionado pelo nome de Jesus -- o verá e à sua dissimulação dispersa como pó ou fumaça diante do vento.

Traduzido do inglês por André Luiz V. B. T. dos Reis