Eparquia Ortodoxa do Brasil

Sobre o Conceito de “Senhor e Salvador Pessoal”

Por Arcebispo Crisóstomo de Etna

Fiquei um pouco surpreso quando o Arcebispo Crisóstomo escreveu algumas críticas sobre minha experiência com Jesus Cristo como meu Salvador pessoal, segundo o contexto do ensinamento ortodoxo... Parece-me que aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador pessoal é o ponto central do Cristianismo... Encontrei Jesus na Ortodoxia, e não vejo razão alguma para olhar para Sua graça salvífica de forma diferente de quando eu era protestante. Fui salvo na Ortodoxia e me alegro em meu Salvador (Lucas 1,47)... Você pode me explicar por qual razão minha linguagem foi tida como “longe do alvo” ou “no alvo errado”?

P.L., IL

Pedimos para Sua Eminência responder sua pergunta e comentários:

Quando me correspondi com você há algum tempo atrás, tive a oportunidade de repreendê-lo devido a sua superficial aproximação à Fé Ortodoxa, sem subscrever a totalidade da experiência salvífica que é encontrada na Teologia Ortodoxa. Agora irei reiterar e explicar o que já lhe contei, esperando que você possa refletir estas questões com cuidado. Primeiro, conforme já lhe disse antes, os conceitos de personalidade e salvação na Igreja Ortodoxa não possuem absolutamente nada em comum com as noções dos protestantes evangélicos; e segundo, a separação entre salvação humana e testemunho da Igreja em dois elementos, se não é uma separação da salvação e da personalidade, é totalmente estranha à Ortodoxia. A salvação é a realização da personalidade em Cristo, através da theosis (deificação através da Graça), e Cristo não é apenas a própria Igreja, como o Pe. George Florovsky demonstrou claramente sob um ponto de vista patrístico (veja, por exemplo, seu brilhante ensaio, , Le Corps du Christ vivant: Une Interprtation orthodoxe de l Église Universelle na coleção Saint Église Universelle [Neuchatel-Paris: Delachaux et Niestl, 1948]), mas a própria fonte, como Plenamente Deus e Plenamente Homem (Teleios Theos kai Teleios Anthropos), da nossa restauração à imagem de Deus, ou ainda, nossa salvação.

Já destaquei este ponto sobre a dimensão existencial e ampla da terminologia religiosa nos Pais da Igreja, quando contei um espantoso incidente em um dos seminários do Pe. Florovsky em 1976, no Seminário Teológico de Princeton. Durante o seminário, um seminarista – frustrado, suspeito, com a profundidade filosófica do Pe. Florovsky ao discutir certos pontos da Patrística (de fato, ele estava, como me lembro, discutindo Orígenes) – levantou sua mão e perguntou corajosamente: - O que tudo isso tem a ver com a aceitação de Jesus Cristo como nosso Senhor e Salvador pessoal? Após uma longa pausa, depois que o Pe. George olhou com um olhar penetrante para o estudante e disse, com uma voz fraca que naqueles dias começava a trair sua idade avançada: - Jovem, me converti a Jesus Cristo, não à piedade protestante evangélica. Então ele continuou a aula, sem fazer qualquer comentário. Ele não tinha dúvidas sobre o encerramento da questão; seu estudante atrapalhado, sem dúvida alguma, não entendeu nada do que o Pe. George havia dito.

Aquele confronto sempre me faz lembrar da vasta distância que separa a teologia experimental dos Padres e a teologia doutrinária dos apologetas cristãos (que o Pe. John Romanides, como veremos abaixo, chamava de teologia polêmica ou dogmática, sem implicar nada pejorativo relativo à palavra anterior), quando é possível dignificar clichês pietistas como o do fato mencionado – não importando a sinceridade com que foram proferidos – com a palavra teologia.

Permita-me elaborar o que já falei, ao tocar no significado ortodoxo da pessoa e da relação entre a personalidade para a salvação dentro do contexto dos ensinamentos de São Gregório Palamas. Desta forma, você verá claramente o que eu quero dizer quando chamo de superficial sua noção pietista de salvação. Isso é feito, de fato, apenas pela cuidadosa definição da nossa terminologia na linguagem utilizada pelos Padres – linguagem proveniente de suas experiências com Deus e da restauração da personalidade em Cristo – assim podemos entender plenamente a profundidade dimensão das referências escriturísticas a Cristo como nosso Salvador pessoal e o nexo experimental entre a pessoa e salvação em Cristo. Quando olhamos para o testemunho vivo dos Padres, capturamos a totalidade do ensinamento Cristão que não possui relação alguma com o entendimento evangélico de salvação pessoal em Cristo, nem em qualquer forma capturada por este entendimento, salvo nos inequívocas tentativas bem-intencionadas daqueles que tentar encontrar o inefável dentro dos trágicos limites de uma existência misteriosa reduzida a uma afirmação verbal.

Começarei meus comentários traduzindo e citando duas seções de algumas passagens muito perspicazes escritas pelo Metropolita Ieroteu de Nafpaktos, sobre a teologia de São Gregório Palamas e a teologia dos Padres Ortodoxos no geral, que nos dão uma base para entender as dimensões experimentais da verdadeira teologia. Essas passagens são encontradas no excelente ensaio de Sua Eminência “He peri prosopou didaskalia kata ton Hagio Gregorio Palama”[1], no qual ele aborda a questão da personalidade de forma diferente – e com um objetivo mais amplo e diferente – da minha, mas essas observações estão de acordo com o que tenho a dizer.

Ao falar sobre a metodologia teológica de São Gregório Palamas, o Metropolita Ierotheos escreveu: “São Gregório foi um teólogo sintético, no sentido que sabia tudo sobre a teologia da Igreja Ortodoxa e se dirigiu de forma incessante para aplicá-la conforme as necessidades de sua época. Os Santos Padres da Igreja sempre fizeram teologia de forma sintética e produtiva.[2] Portanto, através da experiência pessoal com Deus, eles confrontaram as discussões teológicas de suas épocas a partir de suas experiências, que era, e ainda é, a experiência da Igreja, empregando até mesmo a nomenclatura dos hereges, mas com conteúdo e significado diferentes.[3]

Sobre a teologia da experiência derivada da visão de Deus, Sua Eminência escreveu que: “A teologia como uma visão de Deus é uma coisa, como São Gregório Palamas indicou em diversos lugares, e a teologia que busca expressar sua experiência em termos contemporâneos é muito diferente. O Pe. John Romanides, para remarcar a diferença entre as duas teologias, chama uma de teologia empírica [a teologia da experiência] e outra de teologia dogmática – polêmica. A primeira implica na visão da Luz Incriada de Deus na Natureza humana do Logos, enquanto a segunda implica o esforço de transmitir esta experiência nos confrontos com hereges que [meramente] filosofam sobre as questões sérias de Fé.”[4]

Tendo em mente que estes princípios gerais em relação às fontes da teologia genuína (teologia empírica), examinemos o que São Gregório Palamas diz sobre a pessoa. Para começar, devemos dizer algo sobre o entendimento ortodoxo do homem. O homem existe tanto em essência como em hypostasis (e a palavra hypostasis é uma que Palamas considera mais que a palavra pessoa, após pegar muito dessa linguagem sobre o assunto em São Basílio o Grande e São João Damasceno). A essência do homem (tenha em mente que esta palavra deriva do verbo ser, conforme nos lembra o Metropolita Ierotheos) descreve seu estado de ser, que o compartilha com todos os outros. Sua hypostasis (pessoa), entretanto, é aquela que o distingue dos outros. (É preciso dizer que não se deve confundir ingenuamente o termo utilizado aqui ao descrever a natureza humana com a Hypostasis e Essência de Deus, que possui um significado completamente diferente e que é aplicável unicamente a Deus. A Essência de Deus é inefável, e a Hypostasis de Deus é incriada, enquanto a do homem é criada).

A pessoa humana é a manifestação hipostástica da essência humana, a realização daquele que é um ser humano como um indivíduo: ser, novamente, comum em sua essência, mas individual em sua hypostasis ou pessoa, como afirma São Gregório Palamas. É primeiramente à pessoa humana que são destinados os métodos terapêuticos e salvíficos do Hesicasmo, os ensinamentos espirituais de São Gregório Palamas. A limpeza e iluminação da mente humana, a purificação do coração humano, a restauração das paixões (que foram corrompidas e pervertidas pela queda), isso constitui o caminho Hesicasta de vida. E este caminho de vida que age sobre tudo isso leva à restauração do indivíduo, a pessoa humana, que escapa de uma vida de pecado para atingir uma sinergia com Deus. Resumindo, pode-se dizer, apesar do risco das dificuldades teológicas ao exagerar neste ponto, que a restauração do ser humano em Cristo é centrada na pessoa, na restauração da pessoa, e na cura do processo da doença que separa o indivíduo da completa realização deste potencial em Cristo.

Na pura antropologia dos Padres, expressada perfeitamente nos ensinamentos hesicastas de São Gregório Palamas, podemos entender que a essência do homem, seu ser, foi restaurada através da deificação da natureza humana pela encarnação de Cristo, Aquele que, em Sua ressurreição, elevou a existência humana acima de até mesmo daquilo que era antes da queda. A salvação pessoal do ser humano reside em sua livre aceitação do potencial para restauração em Cristo, em sua luta ascética para se libertar do veneno e da doença do pecado, e sua restauração da pessoa humana, sua hypostasis, através da visão de Deus. E esta visão de Deus, segundo São Gregório Palamas, é a comunhão com Deus, a deificação da pessoa humana (theosis) e sua união na energia com Cristo. Nesta deificação através da Graça, o homem chega a um conhecimento íntimo de Deus. Sua mente é purificada e iluminada, seu coração é purificado, suas paixões são purificadas e direcionadas em direção ao amor e ligação com a santidade, assim o homem encontra a salvação.

E outra vez, essa salvação é pessoal, centrada no ser humano distinto que carrega a essência –renovada em Cristo- e que, em sua pessoa, torna-se um pequeno Jesus Cristo com Jesus Cristo, segundo um Pai da Igreja. Por isso Jesus Cristo é nosso Senhor e Salvador pessoal. Neste profundo sentido de personalidade, e num encontro apocalíptico com a redenção (pois a salvação está intimamente ligada à visão espiritual e à revelação noética e ao conhecimento de Deus), encontramos, através da experiência, aquilo que os protestantes evangélicos mais fundamentalistas conhecem apenas de forma vazia. Sabemos através da ligação da verdadeira personalidade em Cristo, que é a iluminação e salvação do homem, o que estes pesquisadores conhecem apenas intelectualmente e nos termos de uma teologia da afirmação, aleijados pelo compromisso com os sentidos e paixões.

Creio que é importante lembrar, neste ponto, que Deus transcende todas as categorias humanas de pensamento, todos os conceitos humanos, e mesmo nosso entendimento sobre Sua existência. A experiência pessoal de redenção em Cristo, portanto, ocorre além das dimensões do intelecto humano, conforme já expliquei anteriormente, pois o verdadeiro encontro com Cristo é um encontro com Deus. Este encontro é resultado da nossa união com as Energias Divinas, e ocorre noética e espiritualmente, através da mente renovada em Cristo, do coração transformado pela Graça e da pessoa restaurada à imagem de Deus em união, pela Graça, com o Deus Homem. A visão divina é, com efeito, a visão além da visão, assim como a personalidade em Cristo está além do pessoal como o entendemos, já que a personalidade decaída não é a verdadeira pessoa, mas um produto das paixões e das inclinações decaídas.

Concluindo, devo enfatizar que o caminho terapêutico rumo à restauração da personalidade em Cristo é e deve ser focado, é claro, na vida dos Mistérios, que são a própria vida da Igreja e que não podem ser separados da Igreja de forma alguma: dentre outras coisas, o completo vazio (kenosis) de pecado, através da confissão e da infusão em nossos corações, une e reina o Sangue e Corpo de Cristo na Santa Eucaristia. A faculdade espiritual do homem, a faculdade noética, após ser retirada de seu local natural no coração, como São Gregório Palamas nos ensina, deve ser trazida de volta ao coração, de volta ao seu lugar natural, assim a pessoa humana pode ser restaurada e, purificada pelos Mistérios, elevar-se acima de sua própria natureza, atingindo aquilo que está acima da natureza, transcendendo a natureza humana através da união com Cristo. Com isso, o ser humano transcende sua própria pessoa, sua restauração em Cristo toca toda a humanidade. Ao obter os dons do Espírito, todas as coisas são vistas claramente, não só para si mesmo, como escreveu São Gregório, mas para revelar a visão aos outros, para que os outros possam receber a salvação através da visão de Deus. Neste sentido, Cristo não é apenas nosso Senhor e Salvador pessoal, mas Ele também é a Pessoa Universal, que nos renova individualmente e, ao ser manifestado em nós, nos revela uma enorme dimensão de salvação pessoal que não podemos imaginar.

Retirado de Orthodox Tradition, Vol. XVII, Nº. 2 & 3 (2000), pgs. 28-34.

Traduzido por Rafael Daher

[1] Cf. seu livro Metaxy dyo aionon (Lebadeia, Grécia: Hiera Mone Genethliou tes Theotokou, 2000). Este livro contém, em adição a alguns fantásticos ensaios sobre a teologia de São Gregório Palamas, um excelente número de artigos sobre assuntos pastorais (alguns apareceram em outras publicações), como também uma série de ensaios sobre o contraste político, social e das idéias religiosas e valores que formaram o Ocidente atual e o Oriente ortodoxo.

Fortemente fundamentado nos pressupostos historiográficos do Pe. John Romanides, e na idéia que a romanidade helênica (Romiosyne), que separa a experiência espiritual do Oriente ortodoxo do Ocidente, este último ensaio contém, de certa forma, um desvio do pensamento claro e preciso que é uma marca nos trabalhos do Metropolita Ierotheos.

Romiosyne, a imagem da hegomonia do Mediterrâneo que fundamentou a criação da civilização européia moderna e suas divisões no Novo Mundo (que são, não importando o quanto politicamente incorreto isso possa parecer, as sociedades européias), é para mim um conceito que convida Oriente e Ocidente ao comodismo, àquele que serve para aliená-los, espalhando tolices sobre a vida que de alguma forma impregna o próprio acesso da alma humana às qualidades restauradoras do catolicismo cristão. Uma visão renovada da herança comum não deve nos levar a enfatizar, da mesma forma que o Metropolita Ierotheos, a separação das experiências oriental e ocidental, mas sim buscar os caminhos em que cristianismo ocidental, especialmente, pode restaurar os freqüentes núcleos superficiais das confissões cristãs ocidentais para o Cristianismo que foi preservado dentro da Ortodoxia. E com toda humildade, os próprios ortodoxos que perdem tempo com o objetivo de fazer contatos ecumênicos não fazem nada além de, no contexto simplista do sincretismo religioso, denegrir a Ortodoxia do que reabilitar o Cristianismo ocidental, que tem de restaurar seu próprio entendimento sobre o tesouro da Igreja Apostólica que possui em mãos. Romiosyne fornece uma oportunidade para descobrir, Oriente e Ocidente juntos, um diamante que adorna a coroa comum da civilização cristã e que o Oriente Ortodoxo guarda plenamente.

Para fundamentar minha visão, o Pe. Florovsky chamou a idéia de uma separação entre Oriente e Ocidente de mito histórico. Embora os ecumenistas políticos tenham distorcido, misturado e explorado sua definição sobre o assunto, sabemos que ele ressaltou que a unidade rompida do Cristianismo não pode justificar uma noção de auto-suficiência da parte do Oriente Ortodoxo. (ver o ensaio do Pe. Georges sobre o assunto em Collected Works [Belmont, MA: Nordland Publishers, 1985-], Vol. XIV, pg. 210). Enquanto a Igreja jamais é dividida, a Cristandade foi certamente dividida pela separação do Ocidente. Isso é inegável. É dever dos ortodoxos, portanto, chamar o rebanho perdido das confissões heterodoxas para a Ortodoxia, uma tarefa que o ecumenismo político, ao comprometer a identidade da Igreja Ortodoxa, falha de forma miserável e lamentável, pois é de pouca serventia para superar aquilo que divide Oriente e Ocidente.

Certamente, o Metropolita Ierotheos concorda comigo e encoraja uma forma de ver a situação de forma mais clara e melhor informada que a descrita aqui. Mas isso que torna ainda mais trágica algumas de suas palavras pesadas em seus ensaios sobre o Iluminismo ocidental e o Oriente Ortodoxo, que parece refletir algo além da experiência universal, católica, de Romiosyne (que, apesar de tudo, formou a cultura para que separemos hoje Oriente e Ocidente de forma tão simples).

[2]. A palavra sintética é utilizada num sentido estritamente teológico. Sua Eminência levanta um ponto muito importante, já que um certo número de teólogos contemporâneos, e especialmente teólogos russos que ainda estão sob a influência da tradição escolástica ocidental, sugerem que a teologia de São Gregório Palamas representa um desvio repentino na tradição da Teologia Ortodoxa. Esta acusação não tem base alguma, tanto histórica como teológica; mas é importante, em resposta a isso, enfatizar que a tradição Hesicasta não é nada mais que uma síntese (uma integração coletiva) de Palamas daquilo que era exatamente o ensinamento espiritual de sua época. Além do mais, ele expressa a experiência atemporal do Eterno, conforme está contida no corpus teológico da Igreja Ortodoxa.

Por teologia produtiva, Sua Eminência se refere à teologia destinada às necessidades de uma época em particular. Este processo criativo não envolve um novo bloco de princípios teológicos, mas sim a expressão das verdades teológicas através do uso criativo da linguagem contemporânea, expressando o que é antigo em palavras novas e atuais.

[3]. Ver Metaxy dyo Aionon, op. cit., pgs. 217-218. Por nomenclatura dos hereges, Sua Eminência fala das categorias e terminologia dos filósofos gregos clássicos, que os padres batizaram e adotaram em suas tentativas para expressar os mistérios da Fé Cristã nas categorias do pensamento humano (e.g., os princípios filosóficos e a linguagem do Aristotelismo, Platonismo e assim por diante).

[4]. Ibid., p. 219.

Retirado de Orthodox Tradition, Vol. XVII, Nº. 2 & 3 (2000), pgs. 28-34.

Traduzido por Rafael Daher