Eparquia Ortodoxa do Brasil

Por que Deus se tornou homem?
A resposta de Sto. Atanásio

Rev. Dr. George Dion. Dragas

Fonte: MYSTAGOGY

INTRODUÇÃO

“Deus se tornou homem para que pudéssemos nos tornar deuses” (Sto. Atanásio).

A Encarnação de Deus é o fundamento da fé cristã. Cristo é o Filho e o Logos (Verbo) de Deus que se fez homem. Ele não é um homem que se tornou Deus, nem um homem que está em uma relação única e perfeita com Deus. Se fosse assim, o cristianismo não se diferenciaria do judaísmo ou de qualquer outra religião. O cristianismo ortodoxo acredita que, em Cristo, o próprio Deus (o Filho de Deus e Verbo) se tornou homem sem cessar de ser Deus, para que pudéssemos ser restaurados e revestidos com as perfeições de Deus.

A Igreja Ortodoxa mantém como tesouros cruciais e essenciais estas clássicas convicções do evangelho. Há, no entanto, muitos pensadores contemporâneos que, baseados em determinados silogismos, as consideram indefensáveis. Eles argumentam que Deus, como um poder absoluto e supremo, não pode se tornar homem se for verdadeiramente Deus; que o eterno e imutável não pode se tornar temporal e mutável etc. Filósofos especulativos levantaram pontos similares desde os primeiros estágios da história cristã, tanto de dentro quanto de fora do contexto da Igreja. Mas a Igreja sempre considerou tais objeções como estranhas à verdade cristã. Aqueles que as propuseram no passado foram caracterizados como hereges, especialmente aqueles que falharam em entender a verdade cristã.

O problema principal dos antigos hereges e dos críticos contemporâneos, no que diz respeito à Encarnação, se origina na assunção de que a fé da Igreja na mesma é resultado de especulações que partem de interpretações subjetivas do advento histórico de Cristo. Para os cristãos e teólogos ortodoxos, porém, a Encarnação do Filho eterno e Logos de Deus é uma verdade dada. Tanto o kerigma apostólico quanto o dogma patrístico encaram a Encarnação como um dado objetivo e um presente divino.

Quando os Padres da Igreja escrevem sobre a Encarnação, o objetivo deles não é reduzir o evento de Cristo, mas antes expor seu significado soteriológico para toda a humanidade. Eles não explicam a Encarnação a partir de nenhum ponto de vista teórico abstrato. Eles buscam antes revelar a lógica interna da mesma e dar testemunho de seus efeitos salvíficos.

Este é o tipo de exposição que este artigo busca providenciar. O propósito é revelar o entendimento da Igreja do significado salvífico para a humanidade do acontecimento da Encarnação de Deus em Cristo, evento que ocupa o lugar essencial no testemunho do evangelho, dos apóstolos e dos Padres. Isto será feito tendo por base a mais famosa obra de Santo Atanásio, “Sobre a Encarnação do Logos divino.”

O TRATADO DE SANTO ATANÁSIO SOBRE A ENCARNAÇÃO

O tratado de santo Atanásio sobre a Encarnação é considerado ainda hoje como a primeira exposição profunda e completa do advento de Cristo. É a continuação de outro trabalho, que carrega o título de “Contra o Paganismo” (Contra Gentes), tema que é resumido no início da obra sobre a Encarnação. “Contra o Paganismo” trata do problema da idolatria – o apego devocional do homem ao mundo (que chamamos hoje de “secularismo”) – causado pela queda do homem do conhecimento de seu Criador. A substância do problema é a perda por parte do homem da autoconsciência, que é ‘lógica’ no sentido de que é “feita à imagem do Logos de Deus” e de que o mundo não possui uma lógica independente à parte dos poderes e energias incriadas do Logos.

As consequências destes problemas dizem respeito à existência e conhecimento do homem. A existência do homem está sujeita à corrupção e morte e o conhecimento do homem está alienado da verdade do mundo e da visão de Deus. Santo Atanásio sustenta que a resposta cristã a este problema e às suas consequências fatais é a redescoberta humana do Logos Criador, que é a chave para a existência do próprio homem e do mundo inteiro. Pois é através deste Logos que o homem se torna de novo capaz de encontrar a Imagem de Deus e refleti-la em si mesmo. Mas o homem não se torna o Logos. Daí a intervenção do Logos e a transformação humana que é alcançada por meio de Sua Encarnação.

O tratado “Sobre a Encarnação” de Santo Atanásio é dividido em duas partes principais, a primeira lidando com o significado da Encarnação e o segundo sendo uma resposta às objeções levantadas por filósofos gregos e judeus. É à primeira parte que voltaremos a nossa atenção.

O EVENTO DA ENCARNAÇÃO: DEUS SE TORNA HOMEM

A Encarnação é o acontecimento por meio do qual o Logos de Deus, através de quem Deus criou e sustenta tudo, revelou a Si mesmo aos seres humanos ao tornar-se um homem entre eles. Porém, diz Santo Atanásio, a forma humana desta revelação, ao invés de encher o homem de gratidão, tornou-se ocasião de rejeição do Logos Criador. Os homens pensaram que era impossível e até mesmo irracional que Deus se tornasse homem! Estavam tão acostumados com a vida sem Ele que acharam impossível acreditar Nele quando nasceu como homem! Era um pensamento atraente para eles que o homem se fizesse Deus e superasse as limitações de sua natureza criada. Mas que Deus se tornasse homem e experimentasse a futilidade e a pequeneza da situação humana era nonsense ou um escândalo ridículo.

Mas a lógica do evangelho, afirma Santo Atanásio, exige o contrário. O que os homens pensavam ser impossível, Deus revela como possível, e assim a futilidade e pequeneza da natureza humana são mostradas como veneráveis, poderosas e salvadoras. O verdadeiro Deus não é um Deus impessoal e indiferente ou algum Deus ideal metafisicamente transcendente. Ele é o Deus que assume a natureza humana, que é pregado na cruz pelo bem dos justos, e que desafia verdadeiramente a natureza por meios aparentemente fúteis e sem poder, mas verdadeiros, naturais e humanos. O objetivo da Encarnação não foi só a revelação de Deus, mas também a salvação e deificação do homem decaído, criatura de Deus. A cruz do Deus Encanado se torna então o troféu contra a idolatria e a superstição, pois por tais meios Deus desmascarou a futilidade das religiões feitas pelo homem e das teologias mal concebidas, e também justificou e renovou a natureza humana como Sua própria criação.

Para Santo Atanásio, a Encarnação estabelece os termos corretos da verdadeira teologia: a deificação do homem tal como desejada por Deus (como Seu dom gratuito) e não como o homem a aspirava (como uma usurpação arbitrária dos direitos de Deus). A verdadeira teologia não é feita pelo homem, mas é dada por Deus quando Ele se torna homem. Isto porque o correto conhecimento sobre Deus está atado com o correto conhecimento sobre o homem. Daí a decisão de Deus de primeiro revelar em Sua Encarnação o verdadeiro homem para então revelar a verdade de Si mesmo. Colocando de outra maneira, o homem se torna teólogo quando se torna verdadeiro homem; e ele se torna verdadeiro homem quando se torna um homem em Cristo. Longe de se opor ao humanismo, a teologia cristã (e particularmente a doutrina da Encarnação) é a sua chave, mas para um humanismo divino, a vida de Deus como homem.

Como isto se deu? E qual a razão ou razões que induziram Deus a seguir tal caminho? Qual o significado profundo da Encarnação? Estas são as questões que Santo Atanásio irá tentar responder em seu tratado. E digo que irá porque em primeiro lugar ele vai examinar certos “pressupostos” da Encarnação. Ele vai nos contar que devemos primeiro entender o porquê e como o homem foi inicialmente criado, e o porquê e como ele caiu desta posição que lhe foi dada por Deus, de modo a compreender o porquê e como Deus se fez homem para nossa salvação. Em outras palavras, a criação e a queda do homem constituem os pressupostos básicos ao entendimento da Encarnação.

A CRIAÇÃO E QUEDA DO HOMEM

O homem não foi criado pelo mundo, mas por Deus. Deus criou tanto o homem quanto o mundo. Os epicuristas, tais como muitos pensadores modernos, propuseram a visão de que o mundo (e portanto o homem) veio a ser através de um processo automático. Os platônicos acreditavam que existia certo criador (o demiurgo) que fez o homem e o universo inteiro, mas eles sustentavam que a matéria de que todas as coisas eram feitas pré-existia ao ato da criação e era eterna. Os hereges gnósticos, que seguiram as antigas tradições religiosas orientais, falaram sobre duas esferas ou substâncias cósmicas, que pertenciam a dois deuses rivais (o deu bom da substância espiritual e o deus mau da matéria) e enxergavam o homem colocado entre estes dois reinos opostos.

Contra estas teorias, Santo Atanásio expôs o ensinamento da Igreja, que é baseado na Bíblia e na revelação divina. Deus criou todas as coisas do nada com Seu Logos divino. Assim, toda forma de monismo ou dualismo cosmológico deve ser rejeitado como falso. A causa da criação foi a incomensurável bondade de Deus, e consequentemente o homem e o mundo são substancialmente bons. Com a criação do homem, Deus mostrou Sua bondade de uma forma especial. Pois Ele sabia que sendo uma criatura tirada do nada o homem não poderia permanecer para sempre na existência – pois toda a criatura que tem um início tem também um fim. Ele fez o homem de uma maneira que este pudesse existir à Imagem e Semelhança do próprio Deus. Em outras palavras, Deus fez o homem apto a participar Nele e a imitá-Lo. Desta maneira, a relação icônica do homem com o auto-existente e eterno Deus tornaria o primeiro capaz de permanecer para sempre na existência.

O mandamento sobre o conhecimento do bem e do mal que segundo a Bíblia Deus deu aos primeiros criados no paraíso, não tinha outro propósito senão o de salvaguardar a graça da imagem e semelhança de Deus, a imitação e livre comunhão do homem com o Criador. Desse modo, o poder da imortalidade e existência eterna que pertence somente a Deus estaria também assegurado para o homem. Em última análise, o elemento mais característico do ensinamento de Santo Atanásio sobre a criação do homem não é tanto a existência criada do homem, mas a coordenação livre desta existência com o Criador auto-existente, o Logos divino, através da graça de ter sido feito à Sua imagem e semelhança.

O homem não é um círculo de existência fechado e governado a partir de um centro em seu interior. Ele é uma existência livre e aberta capaz de se comunicar com o transcendente e auto-existente Deus. Assim, Santo Atanásio nos ensina que a chave de nossa humanidade é o Logos divino e nossa comunhão com Ele. Este é precisamente o ponto em que a nossa queda tem lugar e provoca a corrupção e morte de nossa existência e causa o drama da história humana; que, por sua vez, clama à intervenção do Logos: a Encarnação.

A queda do homem, que é claramente revelada em sua corrupção natural e morte, é em última análise a primeira negativa do homem de apropriar-se da graça do Logos Criador, e em segundo lugar, a escolha pelo homem do mundo limitado e criado como propósito último de sua vida. Isto significa, diz Santo Atanásio, que em nossa vida não mais imitamos e participamos do auto-existente (Aquele que É), mas das coisas que não são. Somos dominados por uma inveja demoníaca (o engano do diabo) que faz de nós transgressores do mandamento divino e deixa a corrupção e a morte reinarem supremas sobre nossa vida. O resultado é que nossa humanidade permanece incompleta – nunca alcançamos o propósito de nossa vida, que é a imortalidade e a deificação.

O DILEMA DO CRIADOR

Esta condição miserável do homem, diz Santo Atanásio, colocou Deus como que num certo dilema! Se ele permitisse que o transgressor continuasse a viver, então correria o risco de passar por mentiroso, pois pareceria falso seu aviso a respeito da morte do homem no caso de sua rejeição do Logos. Por outro lado, deixar o homem perdido na corrupção e morte não se adequa ao caráter de Deus, especialmente porque o homem se tornou partícipe da graça de Sua imagem. Sua verdade pedia que o homem fosse largado à sua perdição, pois isto não iria interferir com a harmonia de Deus com seu Logos e não violaria a liberdade do homem. Mas a bondade de Deus queria salvar Sua criatura, tal como Seu poder era capaz de fazer. O que Deus deveria então fazer com o transgressor voluntário que é o homem?

Talvez alguém possa considerar, diz Santo Atanásio, que a operação mais fácil para Deus neste caso seria exigir o arrependimento do homem. Mas permanece o fato de que o arrependimento não satisfaz a lei da existência, que exige morte, nem resolve as consequências fatais da transgressão sobre a natureza humana. O arrependimento simplesmente põe fim ao pecado, mas não desfaz suas consequências. Se o pecado não tivesse tantas repercussões, o arrependimento poderia ser suficiente para a salvação do homem. Mas agora, sendo o pecado o que é, nem mesmo a graça de ser imagem e semelhança de Deus pode operar. O arrependimento simplesmente não soluciona este beco sem saída.

A única solução para o problema da salvação do homem é a intervenção do Logos criador, que é capaz de recriar o homem perdido. Só o Logos divino, afirma Santo Atanásio, pode manter a harmonia de Deus com Sua Criação, representar todos os homens, sofrer no lugar deles, e recriar todos os homens e todas as coisas: por ser Ele a chave da Criação do mundo e especialmente do homem.

A PRIMEIRA CAUSA DA ENCARNAÇÃO: A DESTRUIÇÃO DA MORTE

É com Seu Logos que Deus novamente age de modo a salvar Sua criação. Ele envia Seu Verbo (Logos) à terra por causa do infinito amor pelo homem, de quem Ele nunca se afastou. E o Logos, que vê nossa má-fortuna e perdição, adentra em nossa raça e se identifica conosco. Ele faz isto assumindo, de uma pura e imaculada virgem, um corpo humano, tornando-se um homem. Com Sua própria existência humana, o Logos oferece uma vida de obediência perfeita a Deus, que termina com Seu auto-sacrifício pelo resgate de todos os homens. O real auto-sacrifício de Cristo é selado com Sua morte sobre a cruz e é vindicado com Sua ressurreição por meio da qual a morte é para sempre destruída.

A morte de Cristo, diz Santo Atanásio, não ocorre pela mesma razão que a nossa. Morremos simplesmente porque a morte tem direito sobre nós em decorrência de nosso pecado. Mas Cristo é justo e sem pecado e, portanto, Ele não morre por Si mesmo mas por nós. Ele não morre, é claro, enquanto Deus – pois isto é impossível --, mas como homem, dado que Ele possuía uma existência humana idêntica a nossa. Ele Se permitiu receber a morte das mãos de outros porque Ele queria adentrar a escuridão última de nossa queda e iluminá-la com Sua presença. Ele morreu como homem de modo a anular a força última da morte. A morte de Cristo, do justo que dá sua vida pelos injustos, tem um significado, valor e efetividade universais. Foi a morte de todos os homens que Cristo cumpriu por meio da Sua, no sentido de que a morte deixou de ser o destino final de todo homem.

Nosso destino último é agora a ressurreição de nossa existência mortal criada para uma nova condição de imortalidade originada pela ressurreição de Cristo. Cristo é o fruto primeiro, e nós o seguiremos. Não mais morremos como condenados, mas morremos para que ressuscitemos e vivamos eternamente com Deus. O significado, valor e efetividade universais da morte de Cristo não estão baseados meramente no fato de que Ele era um justo e verdadeiro homem que foi vindicado por Deus quando morreu nas mãos dos pecadores, mas acima de tudo no fato de que Ele é em última análise o Logos criador que possui as chaves da existência de todos os homens (Ele é o Deus-Homem). A humanidade do Senhor (Seu corpo) é idêntica a nossa, mas adquiriu direitos universais para todos nós porque é a humanidade do Senhor universal de todos (isto é, o corpo divino).

Por fim, Cristo é “o verdadeiro Deus que é acima de tudo e de todos”, que ao se tornar homem recuperou nossos direitos perdidos por meio de Sua morte e ressurreição. A abolição da morte e da corrupção como nosso destino final e o estabelecimento dos direitos à imortalidade e incorruptibilidade para nossa existência humana criada é considerada por Santo Atanásio como a causa primeira da Encarnação. A maravilha do dom pleno de Cristo para nós não é apenas o retorno de nossa humanidade da morte à vida, mas a transformação daquela humanidade em uma existência incorruptível e imortal que é nova e exige a renovação do mundo inteiro.

A SEGUNDA CAUSA DA ENCARNAÇÃO: A RESTITUIÇÃO AO HOMEM DO CONHECIMENTO DE DEUS

Além da morte de nossa existência criada, a queda foi também a causa da nossa ignorância de Deus. Como vimos acima, a existência racional humana implica que ele não apenas se beneficia da vida, mas também do conhecimento, e até mesmo do conhecimento de Deus. De acordo com Santo Atanásio e outros Padres e teólogos de nossa Igreja, o conhecimento do homem não se restringe ao cosmos ou a si próprio, mas está associado em última instância com o conhecimento e consciência de Deus. Sem este, todas as demais formas de conhecimento podem perder seu verdadeiro significado e se tornar, paradoxalmente, provocadores da ignorância.

O conhecimento e consciência de Deus são associados em última instância com a graça da imagem e da semelhança com o Logos divino conferida ao homem quando de sua criação. Em última análise, o conhecimento de Deus pelo homem se fundamenta no conhecimento do Logos, que é a verdadeira imagem de Deus. Ao perceber o Logos, o homem pode perceber Deus e receber então a vida eterna, que jaz em Sua graça. Mas, por causa de sua queda os homens repudiaram esta graça, e como consequência perderam sua capacidade de perceber o Verbo divino (Logos) e, através Dele, de perceber Deus. Esta perda significa também que eles não podem mais entender a verdade sobre o mundo ou sobre si próprios, ou mesmo a verdade que Deus lhes enviou por meio dos profetas e santos. É então evidente que o Logos, a verdadeira Imagem do Pai, tem de ser revelada aos homens uma vez mais de modo a reviver neles a graça da imagem obscurecida.

É exatamente isto que fez o Logos com Sua Encarnação. Ele não apenas revivificou o corpo mortal e o tornou incorruptível, mas também renovou a graça da Imagem de Deus na alma e existência do homem. Nem os anjos nem os homens, afirma Santo Atanásio, poderiam conseguir isto, mas somente o Logos, que é a verdadeira Imagem de Deus. Assim como uma imagem que foi pintada em um pedaço de madeira requer o protótipo para ser restaurada quando destruída, assim também a graça da Imagem do Logos que foi enxertada na alma do homem era requerida para revivificar o homem decaído. É exatamente isto que o Logos de Deus verdadeiramente trouxe: o reviver da racionalidade humana, que envolve a restauração do conhecimento e consciência de Deus no homem e constitui a segunda e última razão da Encarnação.

Para Santo Atanásio, há duas consequências fundamentais da Encarnação, que se referem à salvação e revelam seu significado interior. Primeiro de tudo, a Encarnação abriu o caminho para o retorno de nossa existência mortal e corruptível da morte à vida. Em segundo lugar, deu a possibilidade da renovação de nosso homem interior através da restauração de nosso conhecimento e consciência de Deus, que constitui o fundamento para nosso conhecimento verdadeiro do mundo e de nós mesmos. Cristo nos salvou completamente, porque Levou nossa natureza criada à imortalidade e fez de nós partícipes da vida eterna na luz e glória de Seu reino. A Igreja conhece empiricamente estes dois dons fundamentais de Cristo à humanidade, e assim sua fé no Deus que se tornou homem não é resultado de uma obediência cega a algum dogma imposto do alto. A Igreja não aceita o princípio “acredite e não procure”, mas o princípio “experiente e veja que o Senhor é bom."

Em última análise, e tal como Santo Atanásio ensina em outros escritos, a prova de fé da Igreja no Deus encarnado, Jesus Cristo salvador do mundo, está baseada na presença e atividade do Espírito Santo. Tanto a ressurreição da natureza humana quanto a restauração da graça da Imagem de Deus no homem são obra do Pai através do Filho no Espírito Santo. A salvação inteira do homem, que é atingida e revelada na Encarnação do Filho e Logos de Deus, é o trabalho da Trindade indivisível e consubstancial do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a quem pertencem glória, a honra e o louvor agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.

Traduzido por André Luiz