Eparquia Ortodoxa do Brasil

Abba José e o demônio

''Com o Sinal da Cruz, o velho monge Pai José aprisionou em sua cela um escuro e miserável demônio que tinha vindo tentá-lo.

''Liberte-me, Pai, e deixe-me ir'', implorou o demônio, ''Não vou te tentar novamente''.

''Eu ficaria contente em fazê-lo, mas como uma condição'', respondeu o monge. ''Você deve cantar para mim a canção que cantava diante do Trono de Deus nas alturas, antes de sua queda''.

O demônio respondeu, ''Você sabe que não posso fazer isso; isso me causaria uma cruel tortura e sofrimento. Além disso, Pai, nenhum ouvido humano poderia ouvir esta doçura inefável e viver.''

''Então você terá de permanecer aqui na minha cela'', disse o monge, ''e carregar comigo a luta integral do arrependimento''.

''Deixe-me ir, não me force a sofrer'', implorou o demônio.

''Ah, mas então você deve cantar para mim a música que cantava nas alturas antes de sua queda com satã.''

Assim, o escuro e miserável demônio, vendo que não havia saída, começou a cantar, hesitante, quase inaudível no início, tateando por palavras há muito esquecidas. Nas medida em que cantava, a escuridão que o penetrava e circundava começou lentamente a se dissipar. A música cresceu e se tornou mais alta, aumentando sua força, e logo o demônio se encontrou em sua doçura, sua voz plenamente levantada em louvor e adoração. Ousadamente ele cantou sobre o poder, a honra e a glória do Deus Triuno nas Alturas, Criador do Universo, Mestre do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Na medida em que a canção cantada nas alturas antes de todos os séculos ressoava na plenitude de seu poder, uma luz maravilhosa e gloriosa penetrou a cela humilde do venerável Pai, e os muros que a fechavam já não mais eram. O amor inefável e a alegria surgiriam nas profundezas do ser do anjo radiante e glorioso, enquanto ele gentilmente se abaixava e cobria com suas asas o corpo sem vida do velho eremita que o liberou do abismo do inferno.''

Trecho do Patericon russo, traduzido por André Luiz V.B.T. dos Reis

Trecho do Patericon russo

Traduzido por André Luiz V.B.T. dos Reis