Eparquia Ortodoxa do Brasil

PALESTRA SOBRE O NATAL (Parte 2)

Em 24/12/2011.

Arcebispo D. Chrisóstomo.

Tropário:

O Teu Nascimento, ó Cristo nosso Deus, fez brilhar no mundo a luz do conhecimento. Nela os adoradores dos astros aprenderam, a alcançar-te, ó Sol de Justiça, e a reconhecer-Te como o Oriente vindo do alto. Senhor, glória a Ti.

A palavra chave desse tropário é ‘conhecimento’. Ou seja, o Deus invisível, inacessível, eterno, incompreensível, Se revelou. A grande barreira entre Deus e o homem foi anulada. O mistério que os magos investigavam pelos astros, Cristo ilumina e revela a todos. Deus torna-Se pessoalmente presente entre os homens. E essa presença é reconhecida como um oriente. Ora, oriente é de onde vem a luz. Cristo é o sol de justiça que projeta uma luz própria.

Na antiguidade, a orientação durante as viagens se dava pelo nascer do sol. Isso era um dado prático e simbólico para todas as tradições. Mas com Cristo esse oriente vem do alto. Isso quer dizer que não depende mais das circunstancias geográficas. Por isso D. Gabriel dizia que a solução é sempre para cima.

Kondákion

Hoje a Virgem dá à luz o Eterno e a Terra é uma gruta do Inacessível. Os Anjos e os Pastores louvam-No e os Magos com a estrela avançam. Tu nasceste para nós, ó Menino. Deus Pré-eterno.

É uma imagem fortíssima. Aquele Deus Pré-eterno, aquele Deus que existe antes da fundação do mundo, torna-se um menino. Aqui está a mais pura teologia. Celebrando, ouvindo isso, sensibilizando-se com essas imagens, agente atinge as mesmas profundidades espirituais que um verdadeiro teólogo pode chegar. A Terra torna-se uma gruta. Ela torna-se um útero que pare o próprio Deus. O material ‘dá à luz’ ao imaterial.

III Catisma Poético, T 4

Aquele que nenhum espaço pode conter, como poderia ser contido no seio? E Aquele que repousa no seio Paternal, como uma mãe poderia levá-lo em seus braços? Somente Ele sabe, Ele assim quis, tal foi a Sua vontade. Ele que é o Incorporal encarnou livremente. E por nós, Aquele que É, tornou-se o que não era. Sem sair de Sua natureza, Ele toma parte da nossa condição humana. Em Seu desejo de completar, por nossa humanidade o mundo do Alto, o Cristo nasceu em duas naturezas, homem e Deus.

É aqui que entra a kenosis antes da criação. Deus é Deus. Ele é auto suficiente, auto-realizado, pleno. Mas Ele quis “completar” o mundo do alto, que na verdade não precisava de complemento algum. Mas Ele quis “abrir um espaço”. Ou seja, houve uma diminuição. É quase como que Ele “se afastasse”, desse um passo atrás para que o material pudesse estar “ali”, porque antes era tudo espírito. Agora não. O Catisma diz “Em Seu desejo de completar”, a criação é um desejo de Deus. Ela não era necessária, ela é o resultado da vontade livre de Deus. Deus quis criar o mundo e depois encarnar nesse mundo em razão de Sua filantropia. Foi o “Seu desejo de completar pela nossa humanidade o mundo do alto”.

Tudo isso se passa no pensamento de Deus. Até que chega uma hora que Ele diz: ‘Faça-se’. Aí a Vontade se complementa na Palavra. E isso é feito pelo Espírito enquanto força que mantêm a criação. É a Pessoa do Filho, Imagem e Logos do Pai, que assume a humanidade e nasce como um menino. A própria carne humana torna-se uma manifestação de Deus. O Filho se faz pessoalmente presente na totalidade do ser humano. A natureza humana é santificada de uma vez por todas. Faltando apenas a adesão da vontade pessoal de cada um. E, depois da Ascensão, o Espírito Santo vem e misteriosamente se faz presente junto a cada pessoa. E é Ele que atualiza o Cristo. É pelo Espírito Santo que hoje é possível que a encarnação do Verbo se atualize. Foi pelo Espírito Santo que o Verbo encarnou como filho de uma Virgem. E é pelo Espírito Santo que o Verbo pode encarnar em cada um de nós. É nesse sentido que São Paulo vai dizer que nós devemos ser Templo do Espírito Santo. E quando isso acontece, as energias de Deus vêm numa qualidade distinta, diferente. Pela terceira Pessoa vem a Graça. As energias de Deus procedem da Trindade como um todo, mas podem ser operadas distintamente por cada uma das Pessoas, claro que em cooperação com as outras. Mas essa operação não é mais do Cristo. A operação que Cristo tinha que realizar, Ele já fez. Já está completa. A obra da Salvação está realizada. Mas, aí sim, em razão do pecado, a obra da Salvação só se completa com a paixão. Isso agente fala quando for a Festa da Ressurreição. Mas a obra do Verbo foi realizada. O engraçado é que ela tem três momentos: a ‘Encarnação’, que nós vamos celebrar agora; a Theofania, que ocorre doze dias depois do Natal, em termos do ciclo anual, pois na vida de Cristo, se passam 30 anos entre os dois eventos; e, por último, temos a Ressurreição. E então se realiza por completo a obra de Cristo. O pensamento de Deus torna-se obra realizada. E o Espírito Santo agora só mantêm e atualiza.

Mas a relação com o Verbo fica mantida. O nosso entendimento, a nossa mente, a nossa pessoa tem que manter um diálogo com a Segunda Pessoa. A nossa mente tem que manter um diálogo com a mente de Deus. A nossa vontade tem que ter uma sinergia com a vontade de Deus. Esse é o plano. É aí que os nossos pecadilhos, aqueles tropeços morais que nós damos, atrapalham. Porque essas coisas são expressão de uma direção oposta. Não é a coisa em Si que incomoda. Não é o pecadilho em Si. O problema é que os pecadilhos expressam um desejo, uma vontade, um pensamento que não estão em sinergia com o pensamento e a vontade de Deus. Fica claro isso. Não é que os pecadilhos em Si, nos tornem incapazes de herdar o Reino dos céus. Não é o pecadilho em Si, o que importa é a nossa vontade. A imagem perfeita disso é o bom ladrão. Até o último segundo é possível dizer eu quero. O que significa para nós a encarnação do Verbo?

O problema é que cada um de nós está emprenhado, a palavra é essa mesmo, por uma culpa. Essa culpa é atávica. Ela vem desde Israel. Ela passa para o ocidente. É como disse D. Gabriel uma vez em uma homilia. “Olho esta assembléia e vejo muitos aqui reunidos pedindo a proteção de Deus com medo de ir para o inferno. E vejo quase ninguém aqui presente por amor a Deus.” Entendem a diferença? Por que nós, ocidentais que somos, trazemos essa culpa. Na melhor das hipóteses, quando psiquicamente nos livramos da culpa, ainda ficamos com aquela idéia de que nós temos que praticar a ascese. Nós temos que melhorar. Nós temos que nos santificar. Para poder chegar a um estágio bom de santidade, que agrade Deus para que sejamos recebidos no Reino dos céus. Não existe um estágio mínimo a ser alcançado na ascese para que só então a pessoa seja considerada santa. É santo quem se põe a caminho da santidade.

Essa idéia de ascese, no sentido de que é preciso melhorar, se tornar outra pessoa para só então se tornar digno da salvação, é mentira. Isso é demoníaco. Isso é enganação. Isso é uma forma de impedir que já agora eu dialogue com esse Deus. Usufrua de todos os benefícios, de toda a graça que Ele derrama sobre mim.

Isso é uma inversão. Se penso que tem que haver um labor, um trabalho, uma ascese, para eu estar pronto para amar a Deus, eu já inverti a minha relação com Deus. Primeiro é preciso ser tocado pelo amor, pelo querer. Só depois de já se estar amando é que se vive esse amor, e se trabalha por ele. Primeiro: Eu quero. Eu amo. Agora sim, já tenho um amor e um querer para viver, para trabalhar, para realizar. Aí vai ter todo um labor da minha parte. Mas primeiro eu quero.

E depois tem a mentalidade desse mundo que é a do trabalho, da realização, pelo salário, do mérito. O importante é produzir mercadorias e serviços bem vendáveis, mas a vontade de Deus, a verdade da vida das pessoas é algo que pouco importa para o mercado. Temos que produzir. Temos que fazer. No entanto, o que há de verdadeiro na nossa vida, não somos nós que fazemos. É Deus que faz.

A oração é trabalho? Não deveria ser. A oração é delícia. Orar é um ato de amor. O que dá trabalho é a nossa divisão interior. Se nós fossemos pessoas perfeitamente inteiras. Se nós olhássemos uma coisa e pronto: apaixonei por inteiro. Aí a coisa seria fácil. Acontece que uma parte de mim se apaixona e a outra não. Nós somos divididos. Então, nós travamos uma luta sim. Uma luta interna. E a nossa mentalidade, na maioria das vezes, privilegia a parte que não quer. E ainda temos que conquistar Deus.

Também, a maior parte, dos ortodoxos, acha que tem que conquistar Deus. É a mentalidade de que se tem que fazer alguma coisa para ser merecedor de Deus. Na verdade, o que tinha que ser feito já foi feito. O amor de Deus já nos foi dado. Nós não temos que fazer nada além de aceitar. O nosso único trabalho é não atrapalhar. No entanto, por causa das divisões internas, isso dá muito trabalho sim. Mas sob uma perspectiva diferente. Como nós somos matéria e estamos envolvidos num mundo material. E como estamos envolvidos numa dimensão de espaço e de tempo que demanda energia. Nós temos que desprender energia. Isso é óbvio. Não dá para deitarmos embaixo da sombra da bananeira e esperar cair do céu. Mas o que eu quero dizer para vocês é que nós estamos invertendo. Quando estou amando alguém, eu tenho que desprender toda uma energia a partir do amor que eu tenho. Mas o amor já está comigo. No entanto, muita gente acha que tem de trabalhar primeiro, para então se tornar merecedor do amor divino. As pessoas não vêem que Deus já está presente. Nós comemos da árvore da vida quase todos os domingos. Deus entra em carne e sangue pela garganta à baixo, quase todos os domingos.

No entanto é preciso tomar um cuidado, para não cair no erro de querer ser o critério da verdade. Ou seja, se eu sinto então o mistério acontece. E enquanto eu realmente não contemplo, não vislumbro, não percebo e não me convenço que Deus está presente, acabo ficando frustrado. Como eu sou burro. Como sou pecador. Fico achando que sou incapaz. É com isso que devemos tomar cuidado. Porque, se não, eu só vou considerar verdadeiro quando eu perceber. No entanto, Deus está ali se derramando em Graça sobre nós, independentemente da nossa capacidade de receber ou perceber. Antes de eu ver, antes de eu ter a imagem em mim, ou não, ela já se realizou e está permanentemente sendo estendida até nós, para que participemos dela. Isso precisa ficar claro para nós. É uma certeza que nós temos que ter. Isso é a fé. Eu não consigo ver, mas pressinto que está presente. Foi exatamente o que aconteceu no meu encontro com D. Gabriel. Eu não sabia o que tinha ali, mas eu, de algum modo, sabia que era bom.

Hypakoi T 8

São as primícias das nações, ó Criança deitada em uma manjedoura que Te deu o céu ao chamar os Magos pela estrela. O que neles deixou marcas, não foi o cetro nem o trono, mas uma extrema pobreza, o que há de mais ordinário, na verdade, que uma gruta e o que há de mais humilde que as fraldas, nas quais resplandecem os tesouros da Tua divindade, Senhor glória a Ti.

Quem de nós passando no campo, entra numa gruta, vê uma criança enrolada nos cueiros, dentro de uma manjedoura e sai maravilhado achando que teve uma visão de Deus. A expectativa de ver algo maravilhoso atrapalha, e muito, a nossa percepção. Eu só senti que no mosteiro havia um mundo magnífico, que eu não sabia o que era, porque estava com o espírito aberto. Eu não tinha uma expectativa prévia que precisasse ser satisfeita. Eu só tinha a noção da existência do mistério. Eu sabia que havia um universo que esse mundo não explica. Isso eu sabia. E quando eu cheguei lá senti e pensei: está aqui. Tal como os Apóstolos. Eles esperavam o Messias para salvar Israel. Eles estavam à espera disso, mas completamente despreocupados, fazendo as tarefas deles. Quando Cristo apareceu sentiram: é Ele. Nós às vezes temos um excesso de preocupação com nós mesmos e com nossos critérios, com nossas idéias. Com as relações que nós temos, com os lugares que nós estamos e até com a Igreja. Nós temos uma imagem da Igreja também. Desliga isso. Desliga e olha em volta. Vê se a vida realmente está ruim. Ruim em quê. E se está bom... Está bom em quê? Por que é Deus derramando sua Graça. Ele está presente, é preciso também deixar acontecer.

No início nunca há muita coerência entre o que Deus faz em nossa vida e aquilo que nós esperávamos dela. Acho que até os iluminados que vivem em plena theosis. Mesmo aqueles santos que são capazes de empurrar a montanha para o lado. Até eles ainda tem essas preocupações de não entenderem direito a presença de Deus em suas vidas. Sabe porque eu digo isso? Santo Antão, aquele que ressuscitou, fez previsões, que falou com Deus. Sabe o que ele falou na hora de entregar a alma a Deus e o corpo a Terra? Ele reuniu os discípulos e disse: “Filhos meus rezem por mim, que amanhã vou entregar minha alma a Deus, e ainda nem comecei a minha penitência.” Aí você vê a imagem que ele tinha de si próprio, uma imagem de pecador. E é um adágio que tem na ortodoxia: quanto mais eu me aproximo de Deus, mais vejo o abismo que nos separa. Porque aí nós tomamos consciência da nossa natureza material. Aí tem um labor, mas um labor de outra natureza. É um labor a partir de outra perspectiva.

Não pode haver um preconceito com o labor. Também não pode haver a inversão de começar pelo Labor. A pessoa não pode ser movida pela culpa. Fica árido. Fica obcecado. Vocês parem para pensar. Em termos de qualidade de vida, o conhecimento que nós temos e o que nós vivemos na Igreja, comparem com a maioria da população que está espalhada por aí a fora. Quais são as preocupações deles. Quais são as ansiedades deles. Quais são os medos deles. Nessa noite de natal, quais são os conflitos que eles estão vivendo. E os nossos? O que nós temos a dizer? Graças a Deus. Está vendo a prova inconteste do quanto eu tenho que agradecer a Deus. Esse é o labor. Senhor meu Deus obrigado, pelo menos eu não estou angustiado com dinheiro. Não estou angustiado com poder. Não estou angustiado com beleza. Não estou angustiado com juventude. Sei lá.

Na relação com a Igreja, vai a relação com as pessoas. Vai a relação com o mundo. Vai a relação consigo próprio. Tem trabalho? Tem trabalho. Tem labor? Tem labor. Tem conflito? Tem conflito. Tem tensão? Tem tensão. Mas não tem como você dialogar com Cristo se não tiver Crise. Cristo e Crisis possuem o mesmo radical. Se não a Igreja vai ser algo exterior a mim. O Cristo vai ser algo exterior a mim. A possibilidade de viver no Reino fica algo exterior a mim. O que estou querendo dizer é que é já e agora. Pois que diferentemente do ocidente, para os ortodoxos, o Reino dos céus é já agora. Para nós não é algo depois da morte, quando então seremos recompensados pelos sofrimentos desse mundo. Não. O Reino dos céus é para ser usufruído já, aqui e agora. Com plenitude. É porque tem que ser conquistado aos poucos. Nós temos que saber que Deus nos ama. Que Deus derrama graça. Que Deus nos protege. Deus nos convida. Independentemente da pessoa que nós somos. E por isso mesmo nós temos tudo para ser feliz. Temos tudo para sermos contentes e para termos esperança. Eu hoje pequei, mas se Deus me ajudar eu estou aqui de novo. Não adianta ficar se remoendo pelo pecado cometido. O meu critério não é o que os outros esperam de mim. Eu não preciso ficar preocupado em expiar a culpa.

A possibilidade do pecado existe em nós, na medida das coisas que penso e tomo como ideais. Quando aquilo que quero e busco, são coisas que não levam em conta a presença de Deus na minha vida. Se isso acontece, toda a minha prática me leva ao afastamento de Deus. Eu não devo me preocupar com o que acho que mereço, ou com o que acho que não mereço. O principal labor é o da humildade e da renuncia. É preciso sempre fazer com amor e receber com humildade. Nunca ficar dialogando com os pecados e, sempre, buscar o oriente que vem do alto.

Belém abre para nós o Éden, vinde e vede as delícias que, em segredo, ali encontramos, vinde e colhamos, no interior da gruta, os frutos do Paraíso. É ali que aparece uma raiz que sem ter sido regada, faz florescer o perdão; é ali que encontram-se o poço não perfurado onde Davi desejou beber outrora; é ali que a Virgem, tendo feito nascer a sua criança, estanca imediatamente a sede de Adão e de Davi; por isso apressemo-nos para este lugar onde veio ao mundo para nós uma criança recém-nascida, o Deus anterior aos séculos.

LAUDES, T. 4

Quando se fez o primeiro censo do universo, no tempo da tua vinda na terra, Senhor, Tu te preparava para inscrever os nomes daqueles cujo o Teu nascimento tornou fiéis, eis porque foi publicado o Édito de César, pois a eternidade do Teu reino celestial entrou no tempo! Eis porque nós Te oferecemos nós também, em vez de um tributo de ouro ou de prata, a riqueza da verdadeira fé, ó Deus Salvador de nossas almas.

Quando a Laudes se refere ao Reino não é só a Pessoa de Jesus Cristo não. O Reino de Deus é também esse povo, que com a encarnação Ele inscreveu na vida eterna. Esse é o Reino dos céus. O Reino dos céus não é uma coisa etérea e abstrata. Ele é concreto. Ele é real. Ele tem materialidade. É um novo Céu e uma nova Terra e um novo Povo. Então precisa de gente. Então o que nós temos para dar em troca, como sinergia para Deus, é a nossa verdadeira fé. Por isso é que nós temos que começar a repensar a nossa conversa em Igreja com Deus. Por isso esse nosso encontro aqui. Para ver se nós conseguimos ganhar uma nova perspectiva. Se nós conseguimos ter uma nova ótica na relação com Deus. Tem um pensamento, uma cultura na qual nós fomos gerados e crescemos. E essa cultura é enganosa. E é isso que eu gostaria, por exemplo, quando nós fossemos celebrar os Ofícios próximos da encarnação do Verbo, que agente vá pouco a pouco ganhando essa nova ótica. Essa nova perspectiva. Que agente abandone a culpa. Que agente abandone aquela idéia de que nós temos de trabalhar para conquistar, para fazer, para conseguir. Temos que entender que está tudo feito. Agora temos que trabalhar para não atrapalharmos. Temos que aprender a aceitar.

Teotokion T.2

Neste dia em Belém, o Cristo nasce de uma Virgem. Neste dia o Eterno entra no tempo, a Palavra de Deus fez-Se carne. Os poderes celestiais rejubilam e a terra dos homens estremece de alegria. Os Magos trazem os seus presentes, os Pastores proclamam a maravilha, e nós, sem cessar, nós cantamos glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade.

De fato a melhor obra de ascese que nós podemos fazer é celebrar esse Natal com força, com alegria. Vamos celebrar. Vamos cantar. Conflitos vão haver. Crises e dúvidas também. E é para isso que existem os sacramentos da Igreja. É para isso que existe a confissão. É para isso que existe a pastoral. Que existe a leitura das Sagradas escrituras. Recorram a esses textos. Releiam, revejam, cantem. É preciso abandonar essa idéia invertida de ascese. É preciso abandonar essa idéia de trabalho carregado de culpa. Para que nós venhamos a conhecer verdadeiramente o que é humildade. Aquela verdadeira, serena, tranqüila. A humildade não tira a esperança. É a humilde constatação de que não sou digno, associada à certeza amorosa de que já estou salvo.

O Publicano disse: eu não sou digno nem de levantar os olhos para ti. Mas ele disse isso dentro do templo. Houve um investimento, houve um labor. Mas qual foi o labor dele? Foi buscar Deus. O outro, que fazia mil obras, não foi justificado. A priori não há rejeição nenhuma para nem um de nós. A única forma definitiva e insofismável de não se inscrever nesse Reino dos Céus é se deliberadamente você disser: eu ‘não quero’. Há formas ilusórias e disfarçadas de dizer esse não quero. Se uma pessoa considera que a sua profissão é mais importante do que a vida futura, dá a sua vida pela profissão. Não quer nem saber de Igreja. Não quer nem saber de fé. Nem de Deus, nem de nada. Aí complica. Se o objetivo da vida da pessoa é o poder, o hedonismo, o prazer, o dinheiro. Se ela nunca nem parou para pensar em Deus. Essa pessoa não pode se desculpar por ser ignorante nos saberes da religião. Que ignorância é essa? Ela pode não conhecer direito a doutrina cristã, mas conhece o seu próximo. E no mundo de hoje é sempre possível escolher entre o amor e a indiferença. Deus conhece o coração humano. E por mais obscurecida que seja a vida de uma pessoa, Deus saberá julgar com justiça.

Não se pode mais colocar a culpa na natureza humana. A oração faz parte da natureza humana. É para o diálogo, e pelo diálogo com Deus, que o homem existe. É o diálogo do amante com o amado. Mas como existe a divisão em nossa alma, nós temos que travar uma luta para realizarmos aquilo que seria o mais natural. Com a encarnação do Verbo, a separação entre Deus e o homem deixou de estar na natureza e passou a estar na vontade da pessoa. O problema se deslocou da natureza e ficou na pessoa. A pessoa não é o que aparece no espelho. A pessoa é o que está dentro do coração.

Todo ator deveria ter um domínio e uma clareza muito grande de sua própria pessoa. Porque ele tem a profissão de representar. Ele tem a profissão de fingir uma coisa que você não é. Então, como âncora, você tem que ter muita clareza da pessoa que você é. E a pessoa é a imagem, a idéia que você faz de si mesmo. A construção exterior da pessoa inclui o modo de se vestir, os trejeitos, etc. Num nível mais profundo a pessoa é formada pelos valores que você cultiva. No entanto, a sua verdade fundamental enquanto pessoa não é algo que seja construído a partir de valores e condutas. A verdade pessoal de cada um, só nos é revelada pela presença de Deus no interior do coração. Todos nós temos uma pessoa. Pessoa autêntica é aquela que tem uma imagem e uma vontade que expressam a semelhança divina que está “escrita” no fundo do seu coração. Nós precisamos diminuir nossa individualidade para fazer a pessoa florescer. No mundo nós somos indivíduos. Na multidão nós somos indivíduos. Na comunidade nós somos pessoas.

Isso significa que você tem que escolher um lugar. Você tem que escolher um grupo. Você tem que saber qual é a sua praia. Qual é o teu grupo. Qual é a tua família. E qual é o teu lugar ali.

Toda a nossa ascese em Igreja é deixarmos de ser indivíduos para nos tornarmos pessoa. E tornar-se pessoa nada mais é do que você se comprometer com determinada comunidade. Mas a pessoa é plasmada de fora para dentro, ou existe algo inato capaz de se expandir se houver um ambiente adequado.

O homem não nasceu para viver só. Ele nasceu para o diálogo. Ele precisa do próximo. Primeiro porque na prática precisa mesmo. É impossível viver completamente sem a ajuda de outra pessoa. Alguém costurou essa calça para você. Alguém fabricou esse sapato para você. Eu comprei com o meu dinheiro. Mas alguém deu um trabalho para você. Na vida moderna, quase tudo que você consome é feito pelos outros. Mas mesmo numa situação mais primitiva a própria língua é algo que herdamos da vida social. O individuo é algo demoníaco é uma ilusão, porque de fato ele não existe. O individualismo é uma espécie de doença da Pessoa. Não existe ninguém completamente independente dos outros. Todo mundo em alguma medida é dependente do outro. É bom que isso fique claro. Que tipo de dependência é. Que tipo de relação é. Você é muito meu amigo. Mas se nós vamos comprar uma bicicleta juntos é melhor você me passar um recibo. Isso é bom para que nós continuemos amigos e as coisas não fiquem misturadas. Isso falta no mundo e a Igreja nos possibilita isso.

A maneira que agente tem de conhecer a nossa própria pessoa é exatamente escolhendo uma comunidade. Ao participar da comunidade nós tendemos a assumir um lugar, com o papel que lhe é próprio. No entanto, mais importante que esse lado prático, é passar a observar e a contemplar a nós mesmos, enquanto ocupamos o nosso lugar e atuamos o nosso papel. Através dessa contemplação, nós aos poucos vamos conhecendo a pessoa que nós verdadeiramente somos.