Eparquia Ortodoxa do Brasil

PALESTRA SOBRE O NATAL (Parte 1)

Encontro realizado na Catedral Ortodoxa da Santíssima Virgem Maria

Em 24/12/2011.

Arcebispo D. Chrisóstomo.

PRIMEIRA PARTE

Primeiro vamos falar da Festa anterior

Na Festa da Apresentação da Santíssima Virgem Maria ao Templo, nós vimos que houve o começo da passagem da Antiga Aliança para a Nova Aliança. Na Antiga Aliança, Deus manda construir uma Tenda, o Tabernáculo, que seria o lugar do encontro do homem com Yahwe. Esse Templo-Tenda seguiria sempre junto com o povo, independentemente do lugar para o qual esse povo fosse.

Quando ocorre a conquista da tal terra que emana leite e mel, esse povo constrói um Templo de pedra, que fica fixo no território. É nesse Templo que a Santíssima Virgem Maria será entregue, aos três anos de idade. Nessa Festa da Apresentação, está contido um mistério que é o salto de qualidade de um Templo formal, exterior, estabelecido; para um Templo místico, dinâmico, contido na própria pessoa. A Santíssima Virgem Maria, como representante da humanidade, como imagem do ser humano perfeito mais aperfeiçoado, torna-se o protótipo do novo Templo.

Na Festa do Natal, esse Templo vivo cumpre, em plenitude, a sua função. Que é a de gerar, revelar, mostrar, apresentar e manifestar o próprio Deus encarnado.

O que é a Igreja?

No contexto dessa conversa, eu quero distinguir ‘Templo’ de ‘Igreja’. Vamos considerar o primeiro como o local de encontro do homem com Deus e, o segundo, como o corpo místico de Cristo, onde toda a humanidade pode estar reunida.

Para entendermos o mistério contido nessa Festa, vamos considerar a Igreja como sendo um povo reunido em Deus uma Eclésia. A Igreja é similar a uma família ou mesmo a uma nação. Ela é o conjunto daqueles que estão em comunhão com o mesmo Espírito. Enquanto que o Templo então seria a própria pessoa do cristão.

No ofício de Vésperas do Natal, que nós vamos celebrar, são oito as leituras que são feitas: Gênesis, Números, Miquéias, três leituras de Isaías, uma de Baruc. Eu selecionei três para ler aqui nesse encontro.

Leitura da Profecia de Isaías (11, 1-12)

"Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre ele o espírito do Senhor, e o Espírito de sabedoria e de inteligência e o Espírito de conselho e de fortaleza, e o espírito de conhecimento e de temor do Senhor. E deleitar-se-á no temor do Senhor e não julgará segundo a vista de Seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir de seus ouvidos, mas julgará com justiça os pobres e repreenderá com equidade os mansos da terra, e ferirá a terra com a vara de sua boca, e com o sopro de seus lábios matará o ímpio. E a justiça será o cinto de seus lombos, e a verdade o cinto de seus rins. E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, o filho do leão e a nédia ovelha viverão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão juntas, e os seus filhos juntos se deitarão; e o leão comerá palha com o boi. E brincarão as crianças de peito sobre a toca da áspide, e o já o desmamado meterá a mão na cova do basílisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o monte de minha santidade, porque a Terra se encherá do conhecimento do Senhor, Como as águas cobrem o mar. E acontecerá naquele dia, Que as nações perguntarão pela raíz de Jessé, posta por pendão dos povos, e o lugar do seu repouso será glorioso. Porque há de acontecer naquele dia, que o Senhor tornará a estender a mão para adquirir outra vez os resíduos de seu povo que restarem da Assíria, do Egito e de Patros, e da Etiópia, de Elam, de Senaar, de Emat e das ilhas do mar. E levantarão o pendão entre as nações, e juntarão os desterrados de Israel, e os dispersos de Judá, e os congregará dos quatro confins da Terra".

Isaías profetiza, usando as imagens que eram possíveis ele usar, porque era o que conhecia. Ele falou ao povo usando imagens que o povo conheceria. Mas não quer dizer que, o mistério que está contido nessas palavras, esteja reduzido a estas imagens.

Essa profecia de Isaías é sobre a encarnação do Verbo. E o que ele diz aqui? Primeiro, ele diz que ao Verbo encarnar, o espírito de Sabedoria e de inteligência estará pleno e presente. Isso significa que o abismo entre Deus e o homem acaba. Nós passamos a ter a possibilidade de ver Deus face a face. Passamos a poder ter um diálogo pessoal com Deus. Segundo, quando ele fala que o leão deitará com a ovelha, a vaca pastará junto com a ursa e que não haverá nem mal, nem dano algum... Isso é uma imagem de quê? Onde não vai haver dano nenhum, nem morte, nem maldade, nem perseguição... Isso é o quê?

Mais que isso. É a Jerusalém celeste. É o Reino dos céus. Esse é o reino que já começa com a Igreja. Esse é o reino dos céus que já está aqui e agora. Vocês então vão dizer que é uma possibilidade... Que é uma imagem. No entanto, o Reino de Deus já acontece. Ele é real. São Serafim de Sarov não dividiu o alimento com o urso? A cobra não picou a perna de um monge enquanto ele rezava. E depois não ficaram os dois juntos, um do lado do outro e depois ficaram amigos. Essa possibilidade é real e existe aqui e agora.

Leitura da profecia de Daniel (2, 31-36 e 44-45)

"Mas nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído. Esse reino não passará a outro povo. Esmiuçará e consumirá todos esses reinos e será estabelecido para sempre. Da maneira como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem mãos. E ela esmiuçou o ferro, o cobre, o barro, a prata e o ouro. O grande Deus fez saber ao rei o que deve acontecer depois disso. Certo é o sonho e fiel a sua interpretação."

O ferro, o cobre e o barro é aquela estátua que ele viu no sonho. Em Daniel tem a profecia da encarnação do Verbo, pois que a pedra, a rocha, é o Verbo. É a pedra angular que bate no pé de barro da estátua e faz ela inteira desmoronar. Isso é uma imagem do próximo reino que vai se instalar. “Levantará um reino que não será jamais destruído”. Quem é que lembra de Nosso Senhor dizendo: “...sobre esta pedra reconstruirei minha Igreja e a porta dos infernos não prevalecerá. E ...eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos. .” A Igreja é antecipação desse Reino que foi instaurado com a encarnação do Verbo. Esse Reino já está aqui. Essa Igreja onde estamos, nada mais é do que uma imagem do Reino anunciado. A nave é um lugar sacro. É a imagem de um lugar sacro. É a imagem do Reino dos céus...

Leitura da Profecia de Isaías (7:10-16; 8, 1-4, 8-10)

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sob seus ombros; e o Seu nome será maravilhoso conselheiro, Deus forte, pai da eternidade, príncipe da paz. Do incremento desse principado e da paz, não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o firmar e o fortificar em juízo e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Senhor dos exércitos vos fará isso."

Aqui o Verbo encarnado é chamado de pai da eternidade. Por quê? Lembram das retas da aula de Dogmática? A eternidade atemporal não pode ser representada em retas. A reta, sem início e sem fim, é a eternidade de um tempo que não teve início e não terá fim, mas ainda um tempo criado. A semi reta é o tempo que teve um início mas não terá fim. E o seguimento de reta é o tempo que tem início e tem fim. O tempo do Reino de Deus é essa semi reta, tem início mas não terá fim. Esse tempo já começou e foi inaugurado pela encarnação do Verbo.

Stikéria do Lucernário de Vésperas

“Vinde, alegremo-nos no Senhor, expondo o mistério desse dia. A parede da separação está derrubada. A espada flamejante deposta. Os querubins não mais montam guarda em volta da árvore da vida. E eu participo das delícias do Paraíso. Cuja desobediência tinha me excluído. Pois o ícone imutável do divino Pai. O cunho da Sua eternidade toma a forma de escravo nascendo de uma mãe virgem. Sem sofrer modificação. O verdadeiro Deus permanece o que Ele é. Assumindo o que lhe era estranho por amor dos homens, a humanidade. Por isso cantemos ao nosso Deus, Tu que nasceste de uma virgem, tem piedade de nós."

Está aqui a história do mistério. A história da instalação do novo Reino. A barreira que é derrubada. E para terminar, conhecendo a nossa iniqüidade pessoal, os nossos pecados pessoais, a nossa fraqueza pessoal, a fragilidade da nossa vontade, dizemos: tem piedade de nós.

"Ó Cristo. O que te oferecer como presente por ter aparecido na Terra na nossa humanidade? Cada uma das tuas criaturas, na verdade expressa sua ação de graças. Trazendo para ti, os Anjos, os seus cantos, o Céu, uma estrela. Os Magos os seus presentes. Os pastores, a adoração, a Terra, a gruta, os campos, a manjedoura, e nós mesmos, uma Mãe virgem. Deus anterior aos séculos, tem piedade de nós."

Tudo se completou. O que estava no céu e o que estava na Terra, tudo se completou. A humanidade oferece uma Mãe Virgem. Nós vamos cantar isso em Vésperas, no Ofício de Natal.

Analogia entre o homem e o Verbo

A Festa do Natal é a encarnação do Verbo. Mas qual é a idéia que agente faz de Verbo?

Vamos pensar em Deus enquanto “um ser” divino e misterioso. Deus é um ser que está para além do ser criado e para além da nossa possibilidade de conhecimento. Todo o conhecimento que temos de Deus deriva daquilo que Ele próprio nos revelou, através da inspiração dos Santos e Profetas, dos diálogos com os Anjos, do testemunho apostólico sobre o Verbo encarnado, do testemunho dos iluminados pela união mística,os santos theóforos

Mas, de modo geral, todas essas fontes se utilizam da analogia com o universo criado, como meio de dar forma ao conhecimento teológico. E, como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, é o próprio ser humano que nos fornece a melhor possibilidade de analogia. Mas com isso não estamos querendo dizer o que Deus é. Longe disso! A analogia é só uma forma de aproximação

O homem tem um corpo, uma alma e uma mente. Ele não vive na dimensão apenas da ação. Ele vive também na dimensão do pensamento. Se o homem está em casa e quer beber água, ele não apenas vai e entra em movimento. Ele antes pensa em ir até a cozinha onde está a água. Normalmente, a ação é sempre precedida pelo pensamento. Quando uma pessoa anda concretamente em sua casa, ela virtualmente também anda na imagem mental que ela tem de sua própria casa. É a imagem mental que guia os atos concretos

Além de pensar e imaginar os lugares e as coisas do mundo, nós também imaginamos e pensamos a nós mesmos. Nós temos uma idéia de nós próprios. Quando uma pessoa escolhe um modo específico de se vestir, esse modo de se vestir revela um pouco da imagem que essa pessoa tem de si mesma. Essa maneira específica de se vestir não deixa de ser uma forma de tentar realizar essa auto-imagem. Mas toda a auto-imagem vem acompanhada de um impulso de realizá-la. Essa relação, entre auto-imagem e impulso de realização, é uma das coisas que nos faz ser imagem de Deus.

O quê na dimensão humana é a auto-imagem, em Deus corresponde à Pessoa do Verbo.

O Plano de Deus e o Homem

Outra distinção importante é aquela entre o Pensamento de Deus que é a Sua perfeita auto-imagem, do pensamento de Deus que pensa a futura criação. Vocês já pararam para pensar, que, às vezes, o nosso pensamento é muito maior do que nós próprios. Nós, às vezes, pensamos coisas que não temos condições ou tempo de realizar. Eu posso imaginar aqui uma ilha paradisíaca, mas, para eu chegar lá, vai ser uma trabalheira danada. Vai ser uma conquista de espaço, de tempo e de energia, que no nosso caso significa principalmente dinheiro. Nós, que somos menos que um pontinho no Planeta Terra, somos capazes de especular sobre a origem do universo. Quando especulamos, devaneamos ou planejamos alguma coisa, esses pensamentos podem ser muito mais amplos do que nossa capacidade de realização.

Agora imaginem Deus pensando sobre o mundo a ser criado. Aí vem a pergunta. Tudo o que aconteceu na história do universo e na história do homem já estava previsto no planejamento que Deus fez sobre a criação? A resposta é sim e não.

Ao contemplar o universo que ainda ia ser criado, Deus viu todas as possibilidades em que esse universo poderia se desenvolver. Mas isso não quer dizer que todas essas possibilidades previstas tenham que se realizar. Nem quer dizer que a possibilidade realizada elimine as demais como se elas nunca tivessem feito parte do plano divino. Antes de jogarmos uma moeda para o alto, nós somos capazes de imaginar que vai dar ou ‘cara’ ou ‘coroa’. Mas o fato de dar ‘cara’ não elimina o fato de que poderia ter dado ‘coroa’. A coroa não realizada também integra o fato realizado. Lançar uma moeda que seja coroa dos dois lados, muda completamente o significado do resultado alcançado. O que quero dizer é, se tudo o que aconteceu foi previamente visto por Deus, em Sua contemplação. Isso não impede que no centro de Sua visão ele estabeleça os fundamentos de todas as classes de seres, colocados como um chamado para a perfeição. O universo criado não está entregue a própria sorte, o chamado de Deus e a presença de Deus são permanentes. Só que esse chamado e essa presença se fazem de um modo que respeita a alteridade fundamental da criação. Toda criatura é em si uma resposta ao chamado divino para existência. Um chamado no sentido de que aquilo que não era, não só venha a ser, mas que venha a ser em verdade e plenitude.

Não existe um destino, no sentido de uma seqüência fixa e pré-estabelecida de fatos. Mas existe um destino último, que na verdade é um chamamento, uma vocação, que é a crescente semelhança com Deus. Pode-se dizer que todo o plano divino converge para uma crescente semelhança com Deus.

Antes da criação, já havia um Plano. Quando se diz lá no Credo: “E tudo que se fez, se fez por Ele”. É exatamente por isso. Porque Deus pensou em tudo. Ele contemplou tudo. A criação pensada antes de ser criada é o equivalente ao nosso planejamento. E nessa criação ele colocou o homem como a cereja do bolo. Ele colocou o homem como colaborador. Ele queria que uma humanidade livre participasse do cuidado com o mundo criado.

Com exceção das hierarquias angélicas e do homem, os demais seres são inteiramente insuficientes no diálogo com Deus. Eles dão respostas que podem ser aleatórias, mecânicas ou instintivas, mas são sempre respostas automáticas, no sentido de que não são frutos de uma autoconsciência, pois que determinadas pela própria dinâmica do Cosmos criado.

Pois foi esse Verbo divino, segunda Pessoa da Trindade, que nesse natal encarna e toma a forma de um bebê. A encarnação é algo completamente absurdo no universo da mente humana. É algo de uma grandiosidade inconcebível. Deus apareceu entre nós. Viveu entre nós. Na prosaica forma de um ser humano. Isso que é a Encarnação do Verbo. Dá para imaginar a grandiosidade disso? É a própria imagem do Deus infinito. O próprio pensamento que pensa o plano da criação... É Ele quem agora encarna como homem. Esse pensamento absolutamente poderoso e criador, que dá forma ao universo, agora toma a frágil forma de um bebê, um simplório ser humano. É Deus que Se faz presente como homem entre os humanos. E faz isso de uma forma tão delicada... Tão amorosa... Que não criou constrangimento. Como diriam os portugueses... Não criou ‘mossa’ nenhuma entre os homens. Porque se Deus enquanto Deus, desse um suspiro na criação, ela pegava fogo. Tão poderoso que Ele é. Mas Ele veio de uma maneira tão delicada, tão amorosa e sutil, que algumas pessoas olharam e disseram olha é uma criança brincando. Olha é um homem passando ali. Alguns nem perceberam que era Deus. Dá para pensar nisso?. Aí vem a pergunta... Qual seria o propósito disso? Porque a senhora acha que Deus encarnou?

Muitos teóricos só conseguem ver o aspecto da salvação. O aspecto de que Deus encarnou para salvar o homem em razão da queda. Porque o homem pecou, porque o homem se afastou de Deus. Então o próprio Deus teve que vir a Terra e viver como homem, para resgatá-lo das conseqüências do pecado. Então isso levaria ao raciocínio lógico de que se o homem não pecasse, Deus não encarnava. Se Deus encarnou apenas por causa do pecado do homem, então o homem tem o poder de provocar movimentos em Deus. A salvação realmente está relacionada com o pecado, mas isso tem um aspecto secundário que é posterior em relação ao projeto da Encarnação.

Nós, de maneira alguma, podemos desvincular a Encarnação do Verbo da noção de plenitude dos tempos. Está escrito nas Sagradas Escrituras que o Verbo encarnou na plenitude dos tempos. Então agente pensa assim: quando chegou o tempo máximo, a perfeição do tempo, então aconteceu o Verbo. Como se fosse uma história linear. E não é. Agente não pode desvincular a encarnação do Verbo da criação do homem. Agente não pode desvincular a encarnação do Verbo do Gênesis, da criação do mundo. Em última instância, a Encarnação do Verbo é uma recriação do Cosmos. É uma nova criação.

Antes da criação, já estava no plano de Deus que o Verbo ia encarnar na plenitude dos Tempos. Isso já estava previsto.

Na Sagrada Escritura, uma coisa que ‘encafifa’ muita gente. Uma coisa que muito teólogo não consegue entender, é que está escrito lá que “o Cordeiro de Deus foi imolado antes de todos os séculos”. Então, antes de haver tempo, antes de haver criação, já estava pensado no plano de Deus que o Cordeiro seria imolado. O Cordeiro de Deus é o Verbo de Deus, mas que imolação seria essa? Que sacrifício seria esse que já estava previsto? O sacrifício que estava previsto, desde o início dos tempos, não é a Paixão e a Crucifixão de Cristo (Embora essa possibilidade também estivesse prevista). O sacrifício que estava previsto antes do início dos tempos, como algo que iria acontecer, de um jeito ou de outro, nem que demorasse mais um milênio) é o da Encarnação. O sacrifício que estava previsto é o que consiste em Deus descer de Sua majestade, da Sua grandiosidade... O grande sacrifício que Deus faz é a redução de Sua própria Pessoa, para ser ‘um igual’ com a criatura. A teologia ortodoxa utiliza o termo kenosis para designar esse esvaziamento divino

Então, a principal razão da encarnação do Verbo está numa coisa que se chama filantropia: ‘filo’ quer dizer amor e ‘antropos’ quer dizer homem, significa amor ao homem.

Se não houvesse a queda... Se nós estivéssemos no paraíso adâmico... Se não fosse preciso sofrer a Paixão, morrer crucificado, para depois ressuscitar. Já seria uma absurda redução do próprio Deus, Ele Se submeter aos limites de tempo e de espaço para poder tomar a forma de criado. Mas por que Deus quis se reduzir a forma de Sua própria criatura? Foi por causa da filantropia. Por isso é que se diz que Deus é amor. Deus queria um diálogo de amor. Um diálogo livre. Uma sinergia...

O homem é a criatura desenvolvida para esse diálogo. No entanto, era impossível que essa criatura crescesse espiritualmente por si só, até o ponto de estar preparada para dialogar com Deus na Vida Eterna. Essa criatura não tem esse poder. Então Deus tinha que fazer esse trabalho. Então, em vez da criatura ter que ir lá, é o Deus que vem cá. Ficou claro isso? Com a encarnação acabou a distância. Acabou a distância entre o Deus que é puro espírito e o homem, que é matéria criada. Em Cristo, Deus e homem são uma pessoa só. Para e pensa nisso. Ao final das leituras de Vésperas podemos ver o que significa isso teologicamente. O mistério que nós celebramos todo domingo é que essa barreira acabou. Aí você pergunta: e a questão da queda? Não faz diferença no plano de Deus. Esta é a diferença radical da nossa teologia, da nossa doutrina com a teologia que é praticada no ocidente. O pecado não muda em nada a realização do plano de Deus. É apenas como se fosse uma variação do tom da cor, que pode ser um pouco mais claro ou um pouco mais escuro. Alguns Santos na Igreja dizem: “Não há nada que nos separe completamente de Deus”. Não são os nossos pecados e tropeços eventuais que vão nos separar de Deus. A única coisa que pode nos separar de Deus é o nosso querer. É impossível não pecar no mundo em que vivemos, mas coisa muito diferente é fazer do pecado um modo de vida no mundo. Porque isso é o que muitos fazem quando se lançam numa busca egoísta e desenfreada pelo poder, pelo prazer, pelo dinheiro... É quando Deus não lhes interessa. É quando não se tem tempo nem paciência para Deus.

Mas enquanto nós, mesmo que de forma imperfeita, ainda possuímos um ‘querer viver’ na Vida eterna com Deus. É porque ainda não estamos separados Dele. Pois tudo o que tinha que ser feito, Deus já fez. Nós só precisamos dizer: ‘Tá legal, eu aceito.’ É isso que significa essa Festa..

Então, depois que dizemos ‘sim’ para Deus fica tudo resolvido? Todos os nossos conflitos e divisões internas ficam resolvidas? Não. O que acontece é que a batalha interna passa a ter um sentido, um significado. O que acontece é que nós passamos a reconhecer nossas falsidades. E se existe um mínimo de verdade naquilo que nós somos, cada vez que nós nos desviamos desse encontro é um drama íntimo, um drama pessoal. No entanto o que a Teologia ortodoxa nos diz é que a natureza humana foi salva pela Encarnação do Verbo.

O Reino de Deus e a História Humana

Doxastikon do Lucernário de Vésperas

"Augusto reinando sozinho sobre o mundo habitado. Fez cessar a multidão dos poderes temporais. E tua encarnação da virgem imaculada fez cessar a multidão dos falsos deuses. Assim como todas as cidades foram submetidas a um rei universal. Todas as nações acreditaram em um só Deus soberano. Enquanto os povos foram recenseados pela ordem de Cesar. Nós fiéis, em nome de Deus, registrados na divindade que pela tua encarnação fomos inscritos. Grande a sua misericórdia, Senhor, Glória a Ti."

Você tem um imperador que aniquila todos os reinos e faz um império só. Você tem um Deus que aniquila todos os falsos deuses do politeísmo e torna-se o Deus único.

Vamos fazer um exercício de “hipótese bizantina”. O Verbo encarnou em Belém. Vamos supor que Herodes em vez de mandar matar as 144 criançinhas. Ele vai lá e adora esse menino, reconhecendo nele o rei messiânico anunciado pelos profetas. Vamos supor que todo o povo de Israel e Judá tivesse reconhecido e aceitado o Messias como seu Rei, como seu Profeta e como seu Ungido. Isso seria a Igreja. Então Israel realizaria sua vocação primitiva. Que era ser exemplo atrativo para todas as nações. Isso sem guerra, sem luta, sem violência alguma. Quando os profetas falam de Israel, eles estão falando do povo de Deus. A maioria daquele povo não aceitou? Isso não muda nada. Uma minoria inicial formou o protótipo da Igreja em Jerusalém. Mas a maioria do povo de Israel não só não aceitou Cristo como também se revoltou e fez guerra ao império romano. Israel fez guerra a esse mesmo império que será utilizado como símbolo da dimensão universal da nova humanidade. Israel foi novamente dizimada, o Templo destruído e o povo novamente disperso. Nessa situação, o Reino de Deus não se manifesta como a universalização do antigo povo de Israel, o qual passaria a abranger todos os povos do mundo. O Reino de Deus se manifesta no surgimento de uma nova Fé, no surgimento de um novo povo. No entanto, o protótipo da Igreja de Cristo continua sendo a Proto Igreja de Jerusalém. Que talvez, por isso mesmo, tenha sido dizimada, pois ainda não havia no mundo lugar para ela. Apesar de ter sido dizimada, a Proto Igreja de Jerusalém continuou servindo de modelo para as igrejas cristãs surgidas entre os gentios. E, até hoje, as Igrejas dos gentios (que são a totalidade das igrejas apostólicas de hoje) tem, como critério de legitimidade, a sucessão de seus bispos a partir do círculo dos apóstolos, os quais, naturalmente, eram todos judeus.

Era inevitável que o plano de Deus se realizasse. Ele poderia ter se realizado com a adesão da maioria do povo judeu. Mas a recusa não impediu a sua realização. Nem impediu que o cristianismo se tornasse o herdeiro de toda a tradição judaica. Se eles tivessem aceitado, teria sido a mesma coisa. Israel teria que ter dado um salto de qualidade. Israel teria que ter deixado de ser uma etnia particular e se tornar uma humanidade. Seria o Deus através de Seu povo eleito reconquistando toda a humanidade para o Deus único. E não mais uma etnia fechada na palestina.

Então, quando os profetas falam de Israel, eles estão falando do povo de Deus. No entanto o povo de Deus acaba por ser reunir a margem do povo judeu, que continua a existir de forma independente. O que também não impede dos cristãos se tornarem herdeiros de toda a tradição judaica. Em Deus tudo se encaixa: o recenseamento de todo o império é imagem que simboliza que nós estamos sendo inscritos no Reino dos céus. Observem que, para fazer o recenseamento, eles tiveram que ir a Belém. E a Santíssima Virgem era de lá. Então tinham que registrar o menino lá. Tinham que fazer o recenseamento lá. Vocês sabem qual é a etimologia de Belém? Quer dizer ‘casa do pão’. E Cristo não vai dizer: “Eu sou o pão da vida”? E não foi em Belém que foi gerado o Pão? É incrivelmente poético quando nós percebemos o sentido oculto por trás dessas coincidências. Estão percebendo o que significa a encarnação do Verbo? O que essa encarnação inaugurou?

E vejam bem. O Reino não está aqui como potência. Ele não é apenas uma possibilidade. O Reino de Deus é real. Ele está acessível espiritualmente e se manifesta, de forma concreta, como influência na história da humanidade e na vida das pessoas. Ele está como possibilidade e potência para mim, assim como para cada pessoa considerada de forma isolada. Mas para o povo de Deus, para a Igreja, O Reino já é.

Após a encarnação do Verbo só falta que cada pessoa queira participar dessa salvação. A pessoa Amélia, a pessoa Acácio, a pessoa Lucas, etc. A salvação da pessoa vai sempre depender do querer dessa pessoa

Então fica claro, nas Sagradas escrituras, quando João o Precursor diz: “Eis o Reino que se aproxima”. E quando Ele próprio diz que o Reino está presente. Isso às vezes é uma coisa complicada de se entender. Mas agora ficou claro. O Reino realmente é chegado..

Dando seguimento. No final desse Ofício de Vésperas nós vamos ler:

Apóstica

Senhor Jesus tendo nascido em Belém de Judá, os Magos vindos do Oriente prostraram-se diante do Deus encarnado, e abrindo os seus tesouros, de todo coração, eles O presentearam com dons muito preciosos, como ao Rei dos séculos, ouro; como ao Deus do universo, incenso; e mirra ao Imortal que iria permanecer 3 dias dentro da morte. Vós, todas as nações, vinde e prostemo-nos diante d’Aquele que nasceu para que as almas sejam salvas.

Ele é rei, profeta e imortal. Os magos vão dar ouro, incenso e mirra. A mirra até hoje é usada em serviços fúnebres. É por isso que no ícone, o bebê divino, recém nascido, é apresentado envolto em faixas fúnebres. Mas porque é que entram os três reis magos aí na cena do dia do nascimento de Cristo? É porque todo o cosmos, naquele momento, se curva ao Deus. Inclusive aquela sabedoria profana que foi desbaratada na Torre de Babel. Agora os representantes daquela sabedoria se apresentam para render homenagens. Então nós temos um rei caldeu. Temos um rei hindu. E temos um rei persa. Três civilizações com suas sabedorias e conhecimentos místicos e mágicos, pois naquela época ciência e misticismo andavam juntos. Nos reis magos temos a intelectualidade, o conhecimento mundano oferecendo seus dons. Então quando se diz “Ó Israel, amarás Seu Deus com todas as suas forças e com todo o Seu entendimento”... Em Cristo, esse mandamento se realiza. Na cena está o boi, está a ovelha, estão os pastores, estão os Anjos, estão os Reis, está a manjedoura, está a gruta e está a humanidade. Está tudo. Todo o cosmos está ali naquele momento.

Epístola aos Gálatas (Gl 4, 4-7):

"Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho, e se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo."

Nós hoje somos realmente filhos por adoção. Não por direito, nem por essência, mas por adoção. Somos irmãos adotivos.

Mas com a encarnação do Verbo acontecem duas coisas. Ele, que sempre esteve presente, em Suas energias, agora se torna presente em Pessoa. E depois da partida da Pessoa do Verbo, na Ascensão, vem a terceira Pessoa, que continua misteriosamente presente até os dias de hoje. Pessoa que se torna disponível para quem quiser se tornar Templo do Espírito Santo. Agora, além de sermos filhos de Deus, também podemos nos tornar templos do Espírito.

O importante a ser ressaltado é que é o Verbo que encarna. Cristo não era simplesmente um homem que portava energias Incriadas em Seu interior. Os padres da Igreja fazem uma distinção entre as hipóstases da Santíssima Trindade e as energias de Deus. O Verbo encarnado era Deus e homem, perfeitamente Deus e perfeitamente homem. Com duas vontades, a vontade divina e a vontade humana, mas uma só Pessoa, divina. Não se pode confundir o Verbo com as energias Incriadas. O Verbo, o Logos, o Filho unigênito tem a mesma natureza e essência do Deus Pai e do Deus Espírito Santo. O Verbo tem algo que lhe é próprio e o distingue das outras duas Pessoas da Trindade. Esse algo está relacionado com aquilo que falamos no início. O Logos em Deus não é nem a energia, nem é a essência em si. A encarnação do Verbo não é uma manifestação de Deus por meio de suas energias. A encarnação é algo único, é o Logos de Deus que se torna humano. O Verbo se torna literalmente carne. Não são as energias que encarnam. Assim como não é a essência que encarna. O que encarna é o Verbo. É a segunda Pessoa da Trindade que toma a carne humana, ao nascer da Virgem Maria. O Verbo não é energia Incriada, nem é a essência de Deus. Isso é o que os padres da Igreja dizem. Essa discussão começa com S. Atanázio, depois vai se desenvolvendo, São Basílio também fala nisso, São Gregório também... e por aí vai.

Quando São Paulo diz que não é mais servo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. O fato do Filho de Deus, segunda pessoa da Trindade, assumir a natureza humana implica que a natureza humana foi adotada ao interior da Santíssima Trindade. Então somos filhos por adoção. Dom Gabriel fazia uma imagem em que ele dizia o seguinte: o crescimento na Igreja, ou o crescimento espiritual, passam por três estágios. Tem um estágio em que nós somos servos. Nesse estágio nós obedecemos a Lei. Nós obedecemos às regras e as regras são uma imposição. Somos os servos da casa. Depois de certo tempo, nós nos tornamos amigos do dono da casa. Então, já passamos a ter alguma liberdade. E as regras da casa são seguidas por amizade, respeito e consideração. Como gostamos do dono da casa, nós seguimos as regras com prazer. As Leis já não são uma imposição. No terceiro e último estágio possível para o homem, nós nos tornamos filhos do dono da casa. Nesse estágio, podemos tratar as regras do dono da casa com a liberdade que um filho tem. Esse estado seria a iluminação, seria a theósis. Quando São Paulo fala em ser filho de Deus, eu associei logo com esse estado de theóforo, o portador de Deus.

O Reino dos céus é para ser usufruído já, aqui e agora. Deus nos ama e derrama Sua graça sobre nós e nos protege. Independentemente da pessoa que cada um seja. Mas para que a salvação da natureza humana venha a se aperfeiçoar na salvação da pessoa, é preciso que a pessoa queira...

(Continua na segunda parte).