As duas Festas, do nascimento e do batismo de Cristo são intimamente ligadas entre si, na realidade, compreendendo uma única e indivisível observância. O Ano Litúrgico, consequentemente, contem dois pólos: o primeiro é a Páscoa; o segundo, o Natal e a Teofania.
Antes do Natal, assim como antes da Páscoa, há um demorado e elaborado período de preparação (pré-festa). O Natal é precedido por um jejum correspondente a Quaresma e com duração de quarenta dias. No domingo imediatamente anterior a 25 de dezembro, há uma especial comemoração, com ênfase na ligação entre a Antiga Aliança e a Nova. O segundo Domingo antes do Natal – o Domingo dos Antepassados do Senhor – traz a memória dos antepassados de Cristo segundo a carne, os que estavam antes ou os que estavam sob a Lei. O Domingo que se segue tem uma dimensão ainda mais ampla, comemorando todos os justos, homens e mulheres, que louvaram a Deus desde o início do tempo: dos dias de Adão, o primeiro homem, até José, o noivo da Mãe de Deus. Com o Natal aproximando-se desse modo, o fiel fica preparado para ver a Encarnação, não como uma abrupta e irracional intervenção do divino, mas como o auge de um longo processo que se estende por milhares de anos. Era a intenção original dos tradutores incluir os ofícios desses dois Domingos no presente volume, para que eles constituíssem um maravilhoso sumário da historia do Povo de Deus: infelizmente razões de espaço tornaram isso impossível.
O período preparatório para a festa do Natal começa em 20 de Dezembro, e deste ponto em diante muitos dos textos são diretamente relacionados com o Natal. Mais uma vez, considerações de espaço fizeram com que fossem omitidos todos os ofícios dos dias do período preparatório, com exceção dos ofícios do dia logo anterior. Na Véspera de Natal - conhecida pelo nome especial de paramoni [1] [2] ( grego: paramonh; Eslavão: navechéríe) – o ofício toma uma forma especial. Os ofícios das Horas são mais longo do que de costume e são chamados de ‘A Grande Hora’ ou ‘Real Hora’, pois, no período Bizantino, eram assistidos pelo imperador e sua corte. Em seguida às Horas vem a Grande Véspera e a Liturgia de São Basílio.
No Dia de Natal, os ofícios não comemoram somente o nascimento de Cristo em Belém e a adoração dos pastores, mas também a chegada dos Reis Magos com seus presentes de ouro, incenso e mirra. A história dos três Reis Magos (Mat. 2; 1-12), que no uso romano e anglicano ocorre no dia 6 de Janeiro, acontece na manhã de 26 de Dezembro no rito bizantino.
Os elementos familiares e domésticos da história da Natividade - o bebê envolto em panos e deitado numa manjedoura, o boi e o jumento ao lado dele, os pastores com seus rebanhos vigiando durante a noite - não são esquecidos nos hirmos ortodoxos para este dia. Mas o principal centro de interesse está em outro lugar: não na humanidade do Jesus criança, mas sim na união paradoxal da humanidade com a divindade. ‘Uma criança pequena, o Deus pré-eterno' (kondakion da festa): este é o sentido supremo e crucial do Natal. Sem deixar de ser o que Ele é desde toda eternidade - verdadeiro Deus, hipóstase da Trindade, ainda assim se tornou verdadeiro e completo homem, nascido com um corpo vindo de uma mãe humana.
É a este tema, sob formas incessantemente variadas, que os textos litúrgicos do dia continuamente retornam – para o contraste entre o divino e o humano, na única Pessoa do Cristo encarnado. Ele que formou o mundo, agora ‘toma forma’ como uma criatura, o Criador se faz como um ser criado; ‘Ele que detém toda a criação na palma de Sua mão, hoje, é nascido da Virgem’ (Véspera de Natal, Nona Hora); ‘mais velho do que o antigo Adão’, Ele está nos braços de sua mãe; o Senhor da Glória, aquele que ‘afrouxa os fios emaranhados do pecado", é envolto em cueiros; Aquele que é a razão divina (Logos) repousa numa manjedoura de animais sem razão (aloga); Ele que dá sustento para todo o universo é alimentado com leite. Passagens como estas são mais do que uma retórica tour de force: elas têm a intenção de, numa pequena medida, fazer os membros da Igreja perceber como estranho e surpreendente é isso, de que Deus deve tornar-se verdadeiro homem. Para o adorador que, em espírito, está ao lado do berço, não é o suficiente ver, deitado na palha, o 'suave e manso Jesus’. É preciso ver para além disso, é preciso ver o Filho de Deus, gerado por seu Pai antes dos séculos, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Os dias seguintes ao Natal estão associados com as duas pessoas que estavam mais próximas de Deus em Sua Natividade - Sua mãe e seu pai adotivo. Em 26 de dezembro é o Synaxis da Mãe de Deus, enquanto que o primeiro domingo após o Natal comemora 'José, o Esposo', juntamente com David, o ancestral de Nosso Senhor, e São Tiago, 'o Irmão de Deus" [3]. Outros eventos relacionados com a infância de Cristo são lembrados em 29 de Dezembro, (o Massacre dos Inocentes) e em 1º de janeiro (a Circuncisão de Nosso Senhor). Embora o período pós-festa do Natal se conclua em 31 de Dezembro, o espírito do festival se estende até a véspera da Epifania, com o jejum sendo suspenso nos dez dias que se seguem ao Nascimento de Cristo.
Trecho do texto ‘The Background and Meaning of the Feasts’ incluso no livro ‘The Service Books of the Orthodox Church’.
Traduzido por Lucas Mesquita.
[1] Este termo é aplicado em especial, às vésperas do Natal e Teofania. Paramonh, que significa espera ou vigília, deriva do verbo paramenein, esperar.
[2] Nota do Tradutor: Paramoni (Paramonh) designa os dias de preparação antes de uma grande festa. O termo paramoni faz parte do vocabulário ortodoxo, mas não é muito utilizado. Em inglês é traduzido por forefeast.
[3] Ver Marcos 06:03, Atos 1: 14, etc."Irmão" é aqui entendido pelos ortodoxos como significando meio-irmão (talvez, filho de José num casamento anterior), ou então um primo ou parente próximo.