Eparquia Ortodoxa do Brasil

Domingo dos Antepassados do Senhor

(2011)

Em 25/12/2011

28º Domingo após o Pentecostes - 13 º domingo após a Sta. Cruz

HOMILIA - Lc 14, 16-24

Arcebispo Chrisóstomo

Em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo,

Amados irmãos, hoje é o penúltimo domingo antes da festa da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Natal, o chamado domingo dos Antepassados do Senhor. Deste domingo até o domingo posterior à Teofania temos um ciclo fechado, uma quadra natalina. Os domingos são sempre fixos, as leituras são as mesmas, é um ciclo fechadinho.

Este domingo portanto tem uma leitura própria, que é esta que foi escolhida pela Igreja, essa parábola apresentada pelo Senhor aos seus Discípulos. E não é à toa que foi escolhida esta parábola. O Evangelista Mateus acrescenta à esta parábola que esta ceia, este banquete, era de um casamento, era as bodas do filho do rei, o que vem bastante a propósito para o domingo que comemoramos hoje. E quando nós lemos esse evangelho, quando o ouvimos ser proclamado, muitos de nós às vezes se escandalizam com a atitude que estes homens tomaram. Homens que eram comprometidos com um rei, que eram vassalos de um rei. E, de repente, quando este rei convida para uma festa, convida para o casamento de seu filho, eles dizem que não podem ir: 'ah não posso, não, estou ocupado'; 'tenho coisas mais importantes para fazer'. Acontece que, aqui, muitos de nós fazemos a mesma coisa. E, os que estão lá fora, no mundo, quase todos fazem a mesma coisa.

É muito comum se dizer que nós já nascemos sozinhos, nus e chorando. E que, quando falecemos, o nosso corpo vai também só para o caixão. Queria dizer a vocês que isto é uma renomada mentira. Não é assim que as coisas funcionam. Não estamos sós no mundo. Nós temos esse sentimento, achamos que somos nós contra o mundo, que nós precisamos conquistar o mundo. Que precisamos disputar o mercado de trabalho, precisamos disputar o vestibular, precisamos passar num concurso público. Se fossemos camponeses teríamos o sentimento de ter que de lutar contra a natureza, é a luta para arar a terra, é a luta contra o tempo, contra a seca, contra as enchentes. Nós temos este sentimento, de que estamos sós e que temos de lutar contra o mundo, contra todos. Só que isto não é verdade.

Isso é consequência da queda, consequência do pecado original. É consequência da escolha que Adão fez e que continuamos repetindo dia a dia na nossa vida. Ou seja, separamo-nos de Deus e, como indivíduos, queremos viver a “própria vida”.

Nosso Senhor, criador do universo, colocou o primeiro homem no Paraíso e disse, "tudo é para ti, tudo é para teu alimento, crescei e multiplicai e cuidai do Jardim". "Apenas", foi a única interdição, "apenas da árvore da ciência do bem e do mal dela não comerás; pois ...certamente morrerás". Amados irmãos, eu vos digo que, apesar da escolha de Adão, apesar da Queda, Nosso Senhor não mudou. Tudo que existe no mundo continua sendo para nosso uso, é para nosso proveito, é para nós utilizarmos. Tudo nos foi dado. Somos soberanos sobre a terra. Não deveríamos tratar a terra como estamos tratando, mas isso já é outro assunto. Somos maus soberanos, maus administradores. Na verdade não estamos agindo como administradores, e sim como exploradores e predadores da natureza. E, muitas vezes, como exploradores e predadores uns dos outros. E nem sempre percebemos isso. Muitas vezes não percebemos o quanto que uma mãe explora e oprime um filho, o quanto um marido explora e oprime a esposa, o quanto os filhos podem explorar os pais, o quanto um vizinho oprime o outro, o quanto que o patrão oprime o empregado.

Não deveria ser assim, isso não faz parte da nossa natureza, isso é um desvio da nossa natureza, um borrão na nossa imagem. Fomos criados à imagem de Deus e, portanto, somos um santo ícone. E esse tipo de atitude é quase que um borrão na pintura. É um desvio na nossa natureza.

Mas, voltando ao que falavamos antes, esse sentimento de ter nascido só, nu e chorando, é um sentimento falso. Todos nascem de uma mãe, onde um homem colocou uma semente. Em geral, no mínimo teve uma parteira para ajudar o parto. Mesmo entre os índios sempre tem quem ajude. E quando estamos sós, dentro de um caixão, alguém teve que fabricá-lo e alguns terão que o levar até a cova.

Portanto, não tem jeito, nós necessariamente, insofismavelmente, precisamos uns dos outros. É necessário ter sociedade, ter alianças, ter compromissos. E o primeiro desses compromissos deveria ser com Deus, nosso Rei e criador. Mas, aí é que a coisa complica. Aí é que esquecemos que não somos sozinhos e independentes.

Essa mania de que somos indivíduos sozinhos no mundo e separados do restante do mundo, faz com que pensemos que a Igreja é aquela coisa simpática na qual se canta bonito, que tem um cheiro bom de incenso e padres disponíveis, lá na Saint Roman, para desabafarmos vez por outra. Para o individualista, Deus é uma coisa que não dá para entender muito bem. Não é meu Pai, não é meu Filho, nem é meu irmão. O individualista acha que Deus não faz parte dele, não é algo seu. Deus é algo que existe no exterior do individualista. Isto, amados irmãos, é uma armadilha do Adversário, que só serve para nos enganar.

E, convictos desta falta de parentesco, desta exterioridade de Deus, com freqüência não se tem tempo para aceitar o convite do Rei. Tem o trabalho, tem o aniversário da mãe, é preciso ver o filho no hospital, temos isso, temos aquilo. Temos sempre coisas mais importantes para fazer. E esquecemos que, os sucessos que temos na vida, são dados por Deus. Pois que é pelo Espírito Santo, presente no coração humano, que as nossas qualidades pessoais se revelam. Ás vezes acontece de sermos bem sucedidos em nossa profissão, em nossas atividades. E esquecemos que é a Graça de Deus que faz frutificar o nosso trabalho. E não agradecemos a Deus, não partilhamos esse trabalho com Deus. E depois, com o fruto deste trabalho, a gente faz como aquele estúpido do celeiro, que se dedica a juntar riqueza apenas para seu proveito individual e particular. E o individualista não divide, e não partilha, a abundância dos frutos que pela Graça de Deus foram gerados pelo trabalho. Ele não entende que a partilha só faz multiplicar os frutos. Ele não entende que é preciso compartilhar para que venha mais. O individualista não se entende como um servo de Deus. Ele tende a entesourar, guardando para proveito próprio. Então pode se repetir o que aconteceu com o homem rico, do qual Lázaro disputava as migalhas.

E quando ocorrem fracassos em nossos projetos, em nossas atividades, achamos, na melhor das hipóteses, que foi nossa incapacidade, nossa fraqueza e nossa incompetência. Mas, na maioria das vezes, colocamos a culpa no outro. Sempre achamos que a culpa é do outro, por isso eu fracassei, por isso não deu certo. Quase nunca entendemos que, às vezes, Deus, em Sua Pedagogia, coloca barreiras para que mudemos de curso, ou direção. Dando-nos, paternalmente, uma nova oportunidade de encontrar um verdadeiro caminho.

O que quero dizer é que apesar de não estarmos atentos, de não percebermos, de não vermos, de não ouvirmos e de não sentirmos, Deus está presente em nossas vidas. Nós levamos Deus para a praia, para o trabalho, para o chope com os amigos, para o jantar com a família, para a conversa com o vizinho e para todos os outros lugares e situações. Em última instância, Deus está presente em todas as nossas relações, em todas as alianças, em todos os contratos e compromissos que assumimos e nós simplesmente o ignoramos. Mas Ele não nos ignora e está sempre dialogando conosco por trás de todos esses laços e relações sociais. Deus está por trás de todas as pessoas que preenchem a nossa vida. Ele está presente através da mãe, do namorado, do patrão, do vizinho, do empregado e principalmente em nós mesmos, em nosso coração. (O individualismo é uma armadilha, estimulada pelo adversário, que visa não incluir Deus no meio da conversa). Se esquecermos disso, estaremos fazendo igualzinho a estes homens da parábola de hoje. Deus quer participar, quer estar presente em nossas vidas e dizemos pra Ele, "não chateia". "Não chateia! porque eu cuido do meu trabalho!". "Não chateia! porque o filho é meu. Eu o conheço e quem cuida dele sou eu!" "Não se mete, do meu trabalho quem sabe sou eu." É isso o que a gente faz sem perceber. E nas Sagradas Escrituras está escrito, "a inconsciência não será perdoada". (No fundo do coração, todos sentem a presença permanente de Deus, mas não admitem, nem para si mesmos)

Então, amados irmãos, estamos hoje aqui reunidos para ouvir este Evangelho que foi proclamado e aproveitarmos este finalzinho de quaresma, para começarmos a pensar na forma com que nos comportamos. É preciso questionar para onde os nossos olhos, a luz de nossas almas, estão voltados. Com o quê meu coração está comprometido. Com o quê a minha pessoa está associada. O que realmente busco, pretendo e quero. Quais são meus medos, quais são meus anseios, qual é a minha esperança. Vamos continuar a deixar Deus como aquela pessoa que está presente, mas que todos ignoram na conversa. (E como Ele está sempre em nosso coração, nos revelando quem nós verdadeiramente somos. Quando mantemos Deus fora das relações e das amizades, é o nosso verdadeiro eu que está sendo excluído). Essa atitude talvez seja a origem de muitas doenças e males que sofremos na vida “moderna” de hoje

É preciso questionar, Deus faz parte disto? Deus faz parte das minhas preocupações interiores? (O Deus mantido no exterior da pessoa, frequentemente se transforma num falso ídolo. Um Deus que só nos acusa e nos faz sentir eternamente culpados, não é uma companhia que se possa levar para assistir uma partida de futebol, para um encontro com a namorada ou para uma festa de aniversário). Comecemos por aí, por esses questionamentos, para que depois Ele possa fazer parte também do meu cotidiano, da minha prática de vida. Pois se não tivermos isto claro dentro de nós, em nossas lembranças... Então tudo que somos é uma mentira. Estamos apenas fingindo que somos cristãos. E vocês sabem quem é o pai da mentira. E se vivemos na mentira, vocês sabem onde é que vamos parar: na mão do pai da mentira.

Antes que a Encarnação do Verbo aconteça, antes que realmente vislumbremos Deus descendo para conviver com os homens, antes que Deus venha diante de nossa face... É necessário que nos preparemos. É o que a Palavra de hoje nos alerta. E faz parte da preparação, aceitar o convite que Deus nos faz para partilhar deste banquete que é a vida.

A vida é cheia de possibilidades, é cheia de oportunidades, é cheia de convites. E tudo isto nos é dado, nos é oferecido por Deus. Este é o banquete que Deus nos oferece. Não é como muitas pessoas pensam, que este banquete será num céu em que terá aquela mesa comprida, cheia de coisas deliciosas, e com aquela toalha branca e os anjinhos cantando. Não! Lá no Reino dos Céus não vai ter nenhum pernil pra gente comer. Lá haverá um banquete de delícias espirituais. Mas este banquete de delícias espirituais já acontece aqui e agora na aparência de formas materiais, de coisas concretas. Aqui sim, aqui tem pernil, tem presunto, tem vinho, como imagens do banquete espiritual.

Para que possamos um dia sermos aceitos e usufruirmos deste banquete espiritual, temos de aceitar e viver cada dia como um banquete, que de fato nos é oferecido por Deus. Banquete oferecido para nós, que somos sua criatura bem amada e seus filhos por adoção. É Deus que nos dá o filho, a namorada, o esposo e o trabalho, pois que o amor vem de Deus e fica para sempre, mesmo quando o filho, a namorada, o esposo e o trabalho vão embora, ou terminam. Deus também nos dá algumas aporrinhações, porque, faz parte do nosso crescimento, aprender a enfrentar e vencer desafios. Nós temos de ter isso presente em nossa memória, na nossa cabeça e nas nossas idéias, sob pena de ocorrer conosco o que aconteceu com o avarento do celeiro e com o rico vizinho de Lázaro.

É por isso que hoje, no Domingo dos Antepassados do Senhor, nos foi colocado este Evangelho. Porque Nosso Senhor, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou, fez-Se homem para conviver conosco e mostrar o caminho para este banquete. Pois, o próprio Verbo divino, para que pudesse viver como homem, veio ao mundo no seio de alianças humanas. Ele teve família, teve mãe, teve pai. Ele teve de obedecer à mãe e teve de obedecer ao pai até ser adulto e dono do seu nariz. Por isso comemoramos hoje o Domingo dos Antepassados do Senhor. Para que lembremos que também nós temos antepassados. Antepassados pessoais por natureza, e, enquanto cristãos, antepassados por laços espirituais. Pois se hoje estamos aqui, celebrando esta liturgia, é porque, nos últimos dois mil anos, homens obraram e trabalharam na Igreja, fazendo com que ela exista e perdure ao longo dos séculos e dos milênios. Para que ela chegasse ao nosso tempo e nos possibilitasse usufruir desse tesouro. Desses antepassados em Cristo, nós herdamos a obrigação de continuar trabalhando e construindo a Igreja para os homens futuros que virão.

Amados Irmãos, fazemos parte de uma família grandiosa que não está limitada pelo tempo nem pelo espaço. Esta é nossa principal associação, nosso principal compromisso, com nosso Deus e Rei e Salvador Jesus Cristo. Se começarmos a olhar e agir assim na vida, a promessa de Deus se realizará em nós e participaremos deste banquete fabuloso e espiritual que está no Reino dos Céus, oferecido pelo Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.

Transcrito por André Luiz V.B.T dos Reis.

Revisado por Lucas Mesquita.