Eparquia Ortodoxa do Brasil

Domingo dos Antepassados do Senhor

(2009)

Em 27/12/2009

29º Domingo após o Pentecostes - 13 º domingo após a Sta. Cruz

HOMILIA - Lc 14, 16-24

Arcebispo Chrisóstomo

Em Nome do Pai do Filho e do Espírito Santo.

Amados em Cristo e filhos em Igreja.

Este Evangelho que acabou de ser proclamado neste penúltimo domingo da quaresma do Natal não foi escolhido pela Igreja despretensiosamente.

Fugindo um pouco ao nosso costume de buscar entender as Sagradas Escrituras na dimensão simbólico-humana, vamos antes apreciar uma questão da dimensão histórico-literária.

Nosso Senhor, um perfeito judeu, propõe a judeus uma parábola onde “um certo homem...” – a quem vemos como imagem d’Aquele que promove o banquete celestial – convida seus AMIGOS para um banquete. Mas por estarem ocupados com coisas mais importantes, os AMIGOS se desculpam e não atendem o chamado. Então o Senhor manda procurar pelas praças e ruas da cidade os NÃO CONHECIDOS. Como esses não bastam para ocupar todos os lugares, Ele manda buscar fora dos muros da cidade, nos caminhos e atalhos.

Ora! Quem vivia fora dos muros das cidades de Israel? Os leprosos, os bandidos, indigentes, pagãos, etc. Ou seja, os NÃO MERECEDORES!

Estão atentando para a grande beleza e misericórdia que está se descortinado diante de nossos olhos? Não é à toa que o domingo de hoje chama-se Domingo dos Antepassados do Senhor. O nosso Deus Misericordioso veio preparando a humanidade ao longo de gerações – desde os tempos de Abraão - para o encontro e convívio com o Seu Deus Criador.

Aquele Deus, Puro Espírito, (de Quem o homem escolheu afastar-se) no Seu incomensurável amor pela Sua Criatura bem-amada, humilhou-Se e tornou-Se um igual, apenas para dialogar e amar. É isso que a Festa que se aproxima representa: Deus veio para o amor. Veio para Se dar incondicionalmente.

A parábola retrata como a humanidade vem agindo com o seu Deus. Mas nem precisava a parábola. Bastava olhar em volta. Está todo mundo correndo para os Shopings para cumprir “seus compromissos” e quase ninguém está se preparando para cear com o Aniversariante.

Mas isso não nos afeta, já falamos disso aqui. A humanidade é uma questão para Deus, o que nos interessa é cada um de nós. Mas tanto para cada um de nós, quanto para a humanidade inteira, Ele está eternamente Se ofertando. É isso que celebramos ritualmente em cada ciclo anual e nessa Festa.

Mas o que isso tem haver comigo? Deus nos chama para o Banquete celeste sem sermos merecedores. A primeira vista, essa misericórdia toda é algo que nos parece muito bom. Não é mesmo? O curioso é que aos “não merecedores” Ele manda buscar (em algumas traduções a palavra é forçar). Ou seja, a aceitação não é tão fácil assim. Por quê?

Já que estamos falando em banquete, proponho uma estória: imagine que você está em um banquete muito elegante, chique mesmo. Um daqueles solenes, onde todos os protocolos precisam ser seguidos, pois reis, príncipes e diplomatas estão presentes. Imagine que no momento mais solene e silencioso você derruba e quebra uma taça sobre a mesa. Uma taça cheia de vinho tinto.

Qual o primeiro impulso? Tentar fazer alguma coisa, não é mesmo? Mas não há nada a fazer que não resulte em aumentar a gafe e a imagem de desastrado. O dilema é que, de um lado, o banquete não pode parar, e, de outro, você não tem meios para limpar o vinho derramado.

Mas se o banquete for realmente fino e elegante, imediatamente, e de forma quase imperceptível para a maior parte dos convivas, aparecerá alguém com uma nova taça e um elegantíssimo guardanapo para cobrir a cena. Assim, tudo que no banquete for de real importância continuará a acontecer.

E você? Como se trata de uma pessoa elegantíssima e consciente de que fatalidades acontecem, aceitando os fatos da maneira mais simples e discreta, você simplesmente pede perdão ao presidente da mesa e tudo se normaliza.

Qual o porquê desta estória? Ele está na questão do “ACEITAR”. Esse Evangelho aponta um caminho de solução para os dois anteriores. Lembram da referência a S. Nicolau Cabasilas, que dizia que pessoas preferiam conviver com as flechas do pecado por terem medo da dor de retirá-las?

Eu penso que muitos de nós ficamos muitas vezes com uma espécie de contabilidade jurídica “eu fiz..., não devia..., não vou fazer..., vou fazer assim..., depois que eu fizer..., primeiro eu faço isso...”. Acredito que estas questões que pululam na nossa cabeça só servem para fomentar a ansiedade, a angústia, a culpa, a dúvida. Talvez esteja faltando um pouco desse “aceitar”.

Muito do tempo que a alma fica encurvada sobre si mesma é devido a esta contabilidade psíquica. Muitos dos sofrimentos que temos na vida são aumentados por uma espécie de cegueira, ou não entendimento, que criamos través de uma prosaica atitude de não aceitação. Essa coisa tão simples que é não fazer nada, apenas aceitar, às vezes é quase impossível para alguns de nós. Parece que precisamos nos proteger de qualquer coisa.

Penso mesmo que a aceitação é necessária à sabedoria. Não se pode conhecer algo cuja existência não se aceita. Você só pode meditar sobre algo que conhece e que, portanto, aceitou conhecer.

Eu penso que a chave do Mistério que se aproxima é esse “aceitar”. Deus quer a criatura bem-amada. Ele Se oferece sem fazer acepção de pessoas. Não está, por hora, fazendo contabilidade dos pecados de ninguém. Ele está chamando todo mundo para a Comunhão no Banquete Celestial.

Amados irmãos, sem culpa, sem contabilidades, peçamos perdão, uns aos outros. Como Deus Se oferece em Amor por nós, também nos ofereçamos uns aos outros.

Aceitar o chamado, este é o Mistério da Fé.

Apenas aceitemos. Por que deixar para depois se não há nenhuma condição, nem nada que seja preciso fazer antes? Aceitemos agora!

A quaresma está no fim, meditemos sobre este Evangelho, aceitemos o convite que o Senhor nos faz. Que na Festa da Encarnação do Verbo entre os Homens, junto com os Magos, na gruta de Belém, também nós, povo de Reis, Profetas e Sacerdotes, tenhamos ofertas ao Rei menino. Para que a promessa se realize em nós e ressuscitemos na Vida Eterna com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amem.