Eparquia Ortodoxa do Brasil

Domingo de Zaqueu

(2012)

33° Domingo após o Pentecostes

HOMILIA - Lc 19:1 - 10

Arcebispo Chrisóstomo

Em 29/01/2012

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,

Amados irmãos, este Evangelho que acabou de ser proclamado e que nos é tão conhecido, que já escutamos tantas vezes, ouvimos Nosso Senhor dizer para Zaqueu, "pois também este é filho de Abraão". Segundo a cultura judaica, quando se diz que alguém é filho de alguém ou de algo -- ou da perdição, ou da salvação, ou de Abraão -- quer dizer que ele é herança daquilo, que está comprometido com aquilo. Nosso Senhor quis dizer então que Zaqueu, como filho de Abraão, tem lugar no Reino dos Céus, casa de Abraão. No caso, a família de Abraão é pertencente ao Reino de Deus. Mas como pode Cristo ter dito isto para um homem completamente pecador? Para um homem que era chefe dos publicanos, que espoliava o seu povo, que tirava do seu povo para dar ao invasor, um homem odiado por todos?

A resposta está na pequena estatura de Zaqueu. Pois Zaqueu era um homem pequeno em todos os sentidos. Ele era baixinho, era vil e era medíocre. O objetivo da vida de Zaqueu era o dinheiro. Ele era publicano. O objetivo dele era enriquecer, e era nesse sentido que era um homem muito pequenino.

Muitos de nós, cheios de boas intenções, e querendo entrar no Reino dos Céus, achamos que temos de melhorar como pessoas e sermos santos. Até aí não está errado. O problema está em pensar que primeiro temos de nos limpar, purificar, curar, santificar para depois encontrar Deus. E aí é que está a armadilha do adversário. Porque se for assim, todo este trabalho de busca, de limpeza e de purificação seria obra nossa e não de Deus. Na maioria das vezes, essa busca resulta em decepção, resulta em desânimo. Acabamos por olhar a história dos santos e achando que não vamos conseguir, que é muito para nós, que é muito difícil. Escuto tanto isso na Igreja! Quando falamos da vida de algum santo, vem alguém e diz, "ah, mas isto é muito difícil!"

Mas ninguém disse que era para ser fácil. Não é fácil um baixinho subir até o alto de uma árvore. Não é fácil um homem superar a sua avareza, a sua ambição...Mas Zaqueu, apesar de ser o homem que era, antes de se limpar e tornar-se um bom judeu, quis o Cristo. Ele buscou o Mestre. Que ele nem sabia muito bem quem era [Assim como nós também não conhecemos Cristo lá muito bem. Temos só uma idéia; mas uma idéia não significa muito, pois Deus não se encaixa em idéia nenhuma]. Zaqueu ouviu falar de um profeta, de um mestre, e, não se sabe se movido por pura curiosidade, ou realmente movido por um anseio interior, quis ver. E quando chegou então o momento de ver o Cristo, ele teve diante de si todos os seus limites, todas as suas dificuldades, toda a sua mediocridade, a sua pequeneza. Onde está o mérito de Zaqueu? (Se é que há algum) O mérito está em ele não ter ficado preso a isto. Em ele não ficar se lamentando de ser um baixinho, de ser um pequenino, de ser um pecador, de ser odiado pelo povo. Ele não ficou ali, lambendo as próprias feridas. Ele fez o possível para ver o Cristo. E a solução que ele encontrou foi uma árvore.

Óbvio que isso tudo é uma imagem que diz para cada um de nós que, em cada momento de crise que passamos na vida, em cada momento em que nos deparamos com nossa pequeneza, nossa mediocridade, nossos limites, se nesses momentos nós olharmos ao redor, encontraremos algo para subir. Mais uma vez o Metropolita Gabriel estava certo, esta é sempre a solução. Vamos arranjar um banquinho, uma cadeira, um degrau, uma árvore, um morro, um telhado e subir. E vejam bem, Nosso Senhor Jesus Cristo -- que não mente, pois Ele é a Encarnação da Verdade -- havia dito: "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus". E Zaqueu era rico. Portanto, o que este Evangelho nos ensina é que não existe impedimento, não existe nada que nos separe definitivamente de Deus. Nem a nossa mediocridade, nem os nossos pecados, nada. Apenas se não quisermos, se não buscarmos, se ficarmos limitados à nossa pequenina humanidade, lamentando que somos tão assim, tão pouquinho assim. Estes eu chamo de 'simpáticos'. É o 'simpático' que não muge nem tuge, não ata nem desata, não anda, ficam ali assim: "ai, eu sou tão pouco, tão pequeno, tão pobrezinho, tão pecador". E o 'simpático' não serve para nada.

Os filhos do Reino são aqueles que, independente dos limites humanos, ou independentes de qualquer desafio, querem, buscam e vão atrás. E, no voltar-se em busca de Deus, um dia encontram com Deus, que lhes diz, "hoje me convém entrar em sua casa", "hoje me convém entrar no templo do Espírito Santo, que é o teu corpo", "hoje me convém tomar posse de ti", "hoje me convém que tu sejas verdadeiramente um filho de Deus", "hoje me convém que você esteja santificado".

Mas primeiro temos de subir, de ultrapassar os nossos limites. E ultrapassar os limites não é tentar contentar a nós próprios. É buscar Deus. Porque se nós buscamos Deus, a Graça do arrependimento desce sobre nós. Pois vimos que quando o Nosso Senhor entra na casa, Zaqueu diz, "Senhor, dou a metade de tudo que tenho, e se eu fraudei alguém, devolvo em quádruplo" -- e é lógico que ele fraudou, pois vivia disso. Devolver 4 vezes mais é uma medida que não era judaica, era romana. O arrependimento é Isso. É não querer mais ser a pessoa que éramos antes. Porque a metanoia, o arrependimento, tal como ensinado pela Igreja, não é aquele remorso: "Ai meu Deus, eu errei. Por que eu fiz isso?" Não. Isso é vaidade. O arrependimento é: "Basta! Chega! Não faço mais. Acabou!". É deixar de ser o que se era para se tornar um novo ser, uma nova criatura, uma nova pessoa.

Mas isto só é possível com a Graça de Deus, quando Deus age em nós, quando nos concede o espírito do arrependimento, quando Deus derrama Sua Graça. Porque o Amor e a Misericórdia de Deus já estão derramados sobre nós. Tal como Zaqueu, o que nos basta fazer é crer e buscar. E para buscar não podemos ficar presos em nossos limites. Temos de ultrapassá-los. Temos de realizar essa ‘desinversão’. Não adianta ficarmos muito preocupados com nosso umbigo. Precisamos sacudir a poeira e, independente do aleijão que temos na alma, buscar Deus. Que aí ele colocará no nosso caminho um banquinho, um degrau, uma mesa, uma árvore, seja lá o que for, que será uma ferramenta para ultrapassarmos nossos limites.

E como chegamos agora ao trigésimo terceiro domingo comemorando Zaqueu, estamos nos aproximando da Quaresma. Este Evangelho nos leva a esta meditação. Os próximos evangelhos falam justamente disto, da natureza humana em diálogo com seu Criador. Começa com Zaqueu e segue pelas próximas semanas, e aí sim, depois que tivemos tempo suficiente para meditarmos sobre nós próprios em nosso diálogo com Deus, então estaremos prontos para começar a penitência na Quaresma.

Assim amados irmãos, eu gostaria que nos lembrássemos deste Evangelho. De modo que ninguém mais, de hoje em diante, se lamente da sua condição, da sua situação, de seus limites. E que todos nós tentemos encontrar dentro de si, no próprio coração, o quanto ama, o quanto quer, o quanto busca Deus. E ainda que seja um grãozinho de mostarda, um grãozinho de pó, que use este grão para dar um passo adiante nessa busca por Deus. Nem que seja para clamar, "Senhor, meu Deus, tem piedade de mim, pecador". Já é um passo. É disto que fala o Evangelho. É só disso que precisamos. Todo o restante, o Espírito Santo de Deus vai depois nos mostrando e guiando. E se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, então verdadeiramente vamos para o Reino dos Céus. Porque Nosso Senhor disse, "Eu sou a Verdade, o Caminho e a Vida". E então herdaremos esta Vida no Reino Eterno, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Transcrito por André Luiz V.B.T dos Reis.