Eparquia Ortodoxa do Brasil

DOMINGO DA TIROFAGIA

(26/2/2012 – Civil; 13/2/2012 - Litúrgico) Palestra catequética proferida por D. Chrisóstomo, Arcebispo da Eparquia Ortodoxa do Brasil, jurisdição da Polônia.

Hoje nós vamos falar do Domingo da Tirofagia, enfatizando a ligação existente com o próximo domingo que é o Domingo da Ortodoxia.

A Quaresma, na verdade, começa a partir de hoje. Os três domingos anteriores ao Domingo da Tirofagia já estão dentro do período do Triódio, mas ainda estão fora da Quaresma. Eles são: Domingo do Zaqueu, Domingo do Fariseu e do Publicano e o Domingo do Filho Pródigo. Após esses três domingos vem o Domingo do Carnaval e depois dele de fato tem início a grande Quaresma. E no de correr da Quaresma ocorre a celebração de sucessivas festas.

Diferentemente da ciência moderna que trata o interior do homem com a Psicologia e suas correlatas, a Igreja cuida do homem com um conhecimento que engloba o seu interior e o seu exterior. Podemos chamar este conjunto de técnicas e conhecimento de antropologia cristã. Nesse conhecimento global do homem a Igreja também trata da alma. Só que nós não chamamos de psicologia porque consideramos que a alma tem nous, tem razão, tem memória, tem lembrança, tem inteligência e tem psique também.

Nessa perspectiva, esses três domingos veiculam uma pedagogia do ser interior, da alma. No primeiro desses três domingos, que é o Domingo de Zaqueu, é a oportunidade que nós vamos ter para contemplar, meditar e enfrentar os nossos limites particulares.

Onde é que estão as minhas fraquezas? Aonde é que estão os meus pecados? Onde é que está a minha insuficiência? Eu não posso ser o todo poderoso, o super-homem. Então tem que haver pontos fracos em mim. Quais serão eles? Eu tenho que ter a humildade em reconhecê-los; estas são algumas respostas a se buscar do Domingo de Zaqueu.

O Segundo domingo, o do Fariseu e do Publicano é o outro lado da questão. Eu também tenho qualidades, não tenho? Tem gente que é bonita. Tem gente que é inteligente. Todo mundo tem qualidades. Todo mundo tem dons. Todo mundo tem aptidões. Todo mundo tem pontos positivos. Não é isso? Como é que eu vivo com isso? Eu transformo isso num sentimento de soberba? É apenas nessas minhas capacidades que eu me apoio na vida? Eu desenvolvo os dons concedidos? Reconheço a fonte das minhas potencialidades? Ou seja, o foco é todo outro. É o contrário do Zaqueu. Em Zaqueu eu vou ver minhas fraquezas. No Fariseu e no Publicano eu vou meditar sobre o que considero positivo. Mas sempre na perspectiva de que é preciso ter humildade e senso de limites. Eu uso e vivo a minha sabedoria, a minha inteligência, a minha beleza na medida certa? Eu ponho essas qualidades a serviço do próximo? Ou só uso egoisticamente para meu benefício?

Depois vem o Domingo do Filho Pródigo, que é a experiência e o significado do arrependimento. Nele a Igreja vai nos ensinar o que é o arrependimento. Com esses três domingos, a Igreja nos leva a pensar sobre nós mesmos. Esse é o momento de procurarmos um sacerdote, um confessor. Busca-se o padre da mesma forma como, em outro contexto, se busca um terapeuta. É uma consulta o que se faz com o padre. Isso se chama pastoral. Mas o discurso da pessoa diante do Padre não deve se dar em termos do que “eu fiz” ou do que “eu deixei de fazer” associado a explicações, justificativas ou autocondenações. É mais importante a pessoa dizer o que acontece com ela, ou sobre alguma atitude ou comportamento que ela tende a repetir. A pessoa deve falar do acontecido ou da conduta sem fazer avaliações. Ela deve no máximo colocar suas dúvidas: “Isso é arrogância?”, “Isso é vaidade?”, “Isso é orgulho?”.

O padre é o ‘outro’, que não está envolvido com o penitente. A pessoa que busca o conhecimento não deve desenvolver uma “análise” sobre si mesma. O padre em sua sapiência é que vai buscar exemplos, lembranças no Evangelho, na Tradição da Igreja, orienta a pessoa a ler, estudar e meditar sobre certa passagem, etc. É toda uma conversa que tem um efeito terapêutico, pois que dirigida por uma pedagogia que ajuda a pessoa a se inserir no milenar diálogo da humanidade com o Mistério.

Depois do Filho Pródigo nós nos deparamos com o Domingo do Carnaval. É o domingo em que retiramos a carne. Só que essa carne não é somente a picanha, o bife, etc. Trata-se principalmente de nos afastarmos do espírito da carne, do espírito mundano, do espírito do mundo. Trata-se de trocar uma parcela do tempo que gastamos com as coisas do mundo por um tempo dedicado a vida espiritual e à Igreja. Mas o Domingo de Carnaval também traz um mistério. Ele tem um conteúdo teológico que para nós é muito difícil de assimilar. Ele é o domingo do temível Tribunal de Cristo. E o que nós sabemos sobre esse tribunal? Nada. O que Deus revelou a respeito do que acontece após a morte? Nada. E o Domingo de Carnaval nos convida a abdicar da carne. Mas abdicar em prol de quê? De que maneira? Estamos diante de um terrível mistério, de uma incógnita. Esse domingo é o exercício da fé mesmo. Nós não sabemos, mas nós confiamos.

Então chegamos ao domingo de hoje, o Domingo da Tirofagia. Por que ele tem esse nome de tirofagia? Nesse domingo nós vamos retirar todo o produto animal da nossa vida. Quem já leu ‘O Tratado da Perfeição’ de S. Gregório de Nissa, sobre a vida de Moisés? Lá está descrito, com base na Sagrada Escritura, que quando Moisés sobe a montanha do Sinai para receber as tábuas da Lei, o povo tentou subir, mas não conseguiu, porque tiveram medo. Eles voltaram para o pé da montanha e receberam ordem divina de matar todo animal que tentasse subir a montanha. Por que será Isso?

Antes de responder, vamos nos adiantar para o próximo domingo, que é o do Triunfo da Ortodoxia. O que se comemora nesse domingo?

- A derrota dos iconoclastas e a afirmação da veneração dos ícones.

E por que precisou haver um concílio para determinar isso?

- O ícone expressa a encarnação da segunda pessoa da Trindade que humanamente é o Cristo.

Todos os concílios se reuniram para tentar entender a revelação divina. Para tentar precisar o que Deus nos revelou. E o ápice desta revelação é a Encarnação do Verbo, isso nós vimos na festa do Natal. O ícone deriva diretamente do nascimento de Cristo Mas isso foi muito mal compreendido durante oito séculos (o concílio da vitória dos ícones é de 834).

Durante todo esse tempo, houve pessoas dentro da Igreja que consideravam que, como Deus é puro espírito, não era possível que tivesse vivido entre os homens. Toda a discussão sobre a verdade contida na veneração dos ícones era, no fundo, uma discussão sobre a encarnação do Verbo. O argumento de fundo dos iconoclastas era de que não é possível pintar Deus, porque ninguém nunca viu a face de Deus. E esse pensamento está coerente com o segundo mandamento da antiga Lei que proíbe que se faça imagens de Deus. Estão os iconoclastas errados? Não estão errados nisso, mas também não estão inteiramente certos. Eles não acompanharam o desdobramento da economia salvífica e não perceberam que esse Deus, que ninguém antes tinha visto, em determinado momento encarnou. E a Encarnação significa a nossa possibilidade de salvação. Isso significa que condenar o ícone é, de certa forma, condenar a nossa possibilidade de passar para a vida eterna. Porque Deus assumiu a natureza humana. Ele viveu como um homem. E quando Ele retornou para junto do Pai, levou consigo a natureza humana, abrindo o caminho para que todos os seres humanos pudessem pessoalmente aderir à essa natureza já santificada e assumida por Cristo. É isso que se discute.

Mas o que isso tudo tem haver com o jejum? Com a retirada da carne? O que tem haver parar de comer produto animal com a encarnação do Verbo e com a Salvação?

Lembram da “terapia” de que falávamos. De repente nós paramos de consumir qualquer produto animal. Isso tem haver com a imagem do Verbo encarnado. Cristo encarnou, viveu como homem, igualzinho a todos nós, exceto por uma coisa: Ele não teve pecado. Num certo sentido, Cristo vai ser o homem perfeito, o novo Adão. É por isso que se tira a carne. Pois, nessa terapia que fazemos, é preciso envolver todo o nosso ser. Pois se nós não praticamos inclusive com o estomago, essa terapia fica só na boa intenção. Tem uma oração que se faz em secreto antes da leitura do evangelho. Ela diz assim:

“Faz brilhar em nossos corações a luz do Teu divino conhecimento, ó Senhor e amigo do homem. Abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Teu Santo Evangelho. Inspira-nos temor aos teus mandamentos, para que, reprimindo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito fazendo a Tua vontade. Pois Tu és a luz das nossas almas e dos nossos corpos, ó Cristo nosso Deus. E nós Te glorificamos a Ti, ao Teu Pai sem princípio e ao Teu Santíssimo Bom e Vivificante Espírito, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.”

Essa frase “...reprimindo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito...”. Esse espírito aqui não é o Espírito Santo. Aqui, nós podemos traduzir espírito como inteligência, no sentido que a Igreja entende, que é toda a capacidade intelectiva do homem mais o intuitivo, o que vai do racional ao insight, pois que nós aprendemos de várias maneiras. Nós aprendemos repetindo, que nem os macacos, através de tentativa e erro. Mas também aprendemos como Arquimedes, “Euréca!”, num estalo (insight) ele formula uma lei da física. Esse é um tipo de conhecimento que só o homem tem. É toda essa capacidade cognitiva, interpretativa, intuitiva, que os padres da Igreja chamam de espírito.

Reprimir os desejos de nosso corpo para viver segundo a inteligência. Orientando todos os nossos atos segundo a Tua vontade! Jesus Cristo não disse: “Eu sou a verdade, o caminho e a vida”? Afinal, nós estamos na Igreja para quê? Nós não estamos percorrendo um caminho? Nós não estamos fazendo uma ascese? A Igreja não é a imagem da Barca? Nós não estamos indo para “algum lugar”? Mas alguém sabe aonde é ou como se chega lá?

O caminho tem que ser o Cristo. Deus veio, viveu como homem, para poder levar os homens de volta à união com Ele. Nós temos que seguir os atos de Cristo, não adianta nós inventarmos. A “terapia” na Igreja funciona assim: durante três dias nós paramos, jejuamos, oramos e contemplamos nossas atitudes, nossos atos, ficamos pensando em nós mesmos. Depois vem a conversa com o padre, tem o apoio solidário do padre, tem a oração, que é o lado místico. Tem o intelectual, com a leitura da Sagrada Escritura e de textos dos Padres da Igreja. E depois nós começamos a praticar essa terapia.

Nós temos vontades, temos desejos, nós temos pensamentos, temos lembranças... Esse é o nosso ser interior. Mas nós também temos um corpo. Ele se cansa, possui necessidades fisiológicas, tem libido (desejo sexual), etc. Só que a natureza humana é assim... O corpo sente falta de alimento, o cérebro manda produzir o suco gástrico no estômago e nós ficamos com a sensação de forme. Mas aí a pessoa não pensa apenas em se alimentar. Ela imagina logo um manjar. Ela fica idealizando coisas e passa a desejar aquilo que idealiza. Até que não é mais a necessidade que produz a sensação de fome. É a idéia do manjar que se torna um desejo que não depende mais de se estar com o estômago vazio. O jejum vai mexer nisso. O jejum vai mexer nos nossos processos mais íntimos.

Se nós, o tempo todo, usarmos a nossa inteligência para satisfazer a idealização que nós fazemos das necessidades do corpo, nós vamos ficar pior que um cão ou que um macaco. Nós viramos a caricatura de um animal irracional.

É isso o Domingo da Tirofagia. É o domingo que vai nos preparar para o reconhecimento de quem nós verdadeiramente somos. O homem não foi criado à imagem e semelhança de Deus? O jejum nos prepara para o reconhecimento de nosso próprio ícone, de nossa verdadeira imagem. O jejum não está relacionado a um discurso maniqueísta de condenação da carne como algo do mal. A Igreja não tem essa moral. Não é uma questão de reprimir a carne para libertar o espírito. Muito pelo contrário. O jejum é uma disciplina que possibilita que nós nos conheçamos por inteiro. Ele possibilita o conhecimento de nossa carne, de nossas fraquezas e de nossas necessidades.

Se vocês lembrarem da epístola de hoje,ela é mais contundente sobre o conteúdo da festa do que o evangelho. A ideia da festa e da terapêutica que vivemos na igreja é o mergulho que damos em nós mesmos. Não por uma ótica individual e egoísta, mas pela ótica que Cristo nos chama a viver. E com isso nós nos conhecemos como pessoas. Que tem corpo, que precisa dormir, que precisa satisfazer as suas necessidades, mas que também tem anseios anteriores. Tem vocações anteriores. Tem dons espirituais. Se nós só nos preocupamos em satisfazer as necessidades do corpo. Nós ficamos sem conhecer o resto do nosso ser. Então não conhecemos a nossa imagem, o nosso ícone. Não fazemos uso dessa inteligência que ele fala aqui. Não há moralismo algum,o que há é uma pedagogia ascética que busca nos ensinar a crescer como gente, como pessoa.

Epístola:

E isto digo, pois conhecendo o tempo que não é já hora de despertarmos do sono, que a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé. A noite é passada e o dia é chegado. Rejeitemos as obras das trevas e nos vistamos das armas da luz. Andemos honestamente como de dia. Não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas... Mas revestivos de nosso Senhor Jesus Cristo. Não tenhais cuidado da carne e de suas concuspicencias. Ora, o que está enfermo na fé, recebei-o e não faça contenda sobre dúvidas. Porque um crê que de tudo se pode comer. E outro que é fraco come legumes. O que come não despreze o que não como. E o que não come não julgue o que come, porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor ele está em pé ou cai. Mas estará firme porque poderoso é Deus para ouvi-lo.

Não tem haver com essa oração: “Faz brilhar em nossos corações a luz do teu divino conhecimento. Ó Senhor e amigo dos homens. E abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do Santo Evangelho. Inspira-nos o temor dos teus santos mandamentos a fim de que reprimindo em nós os desejos do corpo, vivamos segundo o espírito, orientando todos os nossos atos segundo a tua vontade. Pois Tu és a luz de nossos corpos e de nossas almas.”

Pe Levi: O senhor falou que o estômago produz o ácido clorídrico, mas esse ácido não tem nada haver com a fome. Ele apenas produz a gastrina que cai no sangue, e depois vai ao cérebro, no mesencéfalo, e manda uma ordem para o estômago de contractividade que produz a sensação de fome. Mas isso só acontece nos três primeiros dias, pois, depois disso, o próprio cérebro manda uma contra-ordem que é para não insistir com a sensação de fome. É produzida, então, a contra-gastrina. Portanto, é preciso lutar nos três primeiros dias, mas, depois, o próprio corpo nos ajuda.

D. Chrisóstomo – Isso mostra como o “espírito da carne” mexe com os nossos gostos e com as nossas preferências. Então é preciso lutarmos para passar pelos primeiros três dias para conseguirmos fazer o jejum. Pois se não fizermos o jejum, nunca que vamos passar por essa transformação. Todo mundo que faz o jejum de quaresma completo, quando, chegando ao final, pensa que vai comer carne novamente, sente certa rejeição por essa ideia. O jejum é todo um processo educativo do nosso ser. E é isso que ele fala aqui a respeito da inteligência. Quando a Igreja propõe um jejum que retira todo o produto animal, excetuando o consumo de peixe, restrito ao domingo, não impõe isso como uma lei que tem de ser cumprida a ferro e fogo. Tem coisas que a pessoa não vai tirar. Se tirar, vai deixar a pessoa nervosa, roendo unha. Essa franqueza e honestidade são necessárias na pastoral. É aí que entra a nossa terapêutica. É preciso conversar com o padre honestamente. É preciso conversar com o ícone de Cristo honestamente. Se ela não consegue se abstiver, conforme o que está prescrito, ela deve se comprometer a se abster de outras coisas que lhe possibilitem iniciar, de alguma outra maneira, a experiência do jejum.

A proposta do jejum é que eu aos poços tome domínio sobre mim mesmo. Para não ser mais uma pessoa que é jogada emocionalmente de um lado para o outro, conforme as coisas vão acontecendo. Ser um joguete das emoções é algo completamente irracional. Quando a igreja convida para o jejum, ela coloca uma regra geral para todos. Depois cada um vai se encaixando nessa regra como um todo. E, conforme São Paulo falou, que cada um não julgue o outro pelo que come ou pelo que deixa de comer. Isso porque no fundo, no fundo, Cristo é um só. Ou seja, todos nós dialogamos com o mesmo Cristo. Agora, eu tenho que encontrar o meu tempo, o meu caminho, a minha maneira de cumprir a regra geral. Desde que haja a compreensão de que é uma regra que visa à ultrapassagem do meu individualismo. Então, eu não posso fazer do meu conforto o limite do meu jejum.

Então, a partir de hoje, nós retiramos produtos de origem animal, respeitando os que não podem, devida a idade, devido a estar amamentando, devido à saúde, etc. Ou seja, cada um tem que encontrar o seu lugar na igreja. E é através do diálogo com o eu interior, e com Deus, que nós encontramos o nosso lugar. Que nós, pouco a pouco, vamos encontrar a nossa verdadeira imagem, que é aquela com que Deus nos fez. E a nossa verdadeira imagem é o ícone, cuja teologia e veneração são afirmadas e comemoradas no próximo domingo, que é o Domingo da Ortodoxia.