Eparquia Ortodoxa do Brasil

Em 4/12/2011

21 de novembro pelo calendário litúrgico.

HOMILIA

A feminilidade da Igreja

Arcebispo Chrisóstomo

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,

Amados irmãos, no domingo de hoje celebramos a festa da Apresentação da Santíssima Virgem Maria ao Templo, que é uma boa oportunidade de percebermos um Mistério que paira sobre a Igreja.

Um dia desses, conversando com o nosso Reitor da catedral, falei sobre uma palestra que assisti na TV, na qual um pastor evangélico se empenhava em provar por a+b que, segundo as Sagradas Escrituras, José conheceu Maria, no sentido de relações conjugais, após o nascimento de Cristo. Nesse sentido, o pastor tece uma série de argumentações racionalistas e filológicas para tentar explicar...

No entanto, essas argumentações racionalistas são típicas de quem ignora o que é o principal na nossa fé e na nossa vivência em Igreja: o simples admitir que o mistério existe. E que a Santíssima Virgem Maria é a imagem perfeita deste Mistério.

Na nossa relação com Deus há coisas que não se explicam. Não é para ser explicado, é para ser vivido. Em função disto, em vários lugares em que já fui me perguntam o porquê as mulheres não podem ser sacerdotes na Igreja. Como é que se vai explicar isto?

Esta é uma explicação que não se dá. Já começa que esta pergunta está colocada de uma maneira errada. Não é que as mulheres não podem, elas simplesmente não precisam. A ordenação de mulheres seria algo supérfluo e excessivo em relação ao natural sacerdócio feminino. E aí temos a Santíssima Virgem Maria pra demonstrar isto. Deus cria o homem no Paraíso para o diálogo com Ele. Mas em vez do homem assumir uma postura feminina, no sentido de receptividade espiritual, ele -- muito másculo e viril diante de Deus -- preferiu viver a vida por conta própria. Em vez de dialogar com o que Deus oferecia, ele preferiu protagonizar um monólogo de desejo de poder e auto-afirmação sobre o mundo.

A criação do homem coloca o mundo numa dimensão mais espiritual. Deus faz um convite ao homem: para ele crescer, multiplicar e dominar sobre os seres da do Jardim, ou seja ser um colaborador de Deus, um participante no mistério da Criação. Mas o homem vira as costas e se propõe a uma vida diferente. Com isto houve um afastamento. Deus, em Sua paciência, assiste e permite este afastamento. E o homem e o mundo ficam reduzidos a esta dimensão material que conhecemos hoje: uma dimensão limitada pelo espaço e pelo tempo. Esta é nossa limitação, não há como ultrapassarmos os limites do tempo e do espaço.

Pois bem, então Deus vai esperar o tempo necessário, milênios, enquanto a humanidade vive um processo civilizatório por meio do qual ela “aperfeiçoa” a si mesma, em vários sentidos: socialmente, culturalmente e, principalmente, no sentido espiritual. Esta obra de crescimento da humanidade é uma preparação para que ela alcance uma nova condição onde o diálogo face a face com Deus, mais uma vez, pudesse ser possível. Esta condição que antes estava depositada na pessoa de Adão, desta vez vai ser alcançada na pessoa de uma mulher. Essa condição é expressa pela possibilidade de trazer à luz a Vida plena. Cristo é essa vida. Como afirmou S. Irineu de Lyon, “Deus se fez igual à nós para que nós possamos ser como Ele”.E essa é a essência do sacerdócio em Cristo, gerar vida em todas as suas dimensões e em todas as suas possibilidades, principalmente a Vida Eterna. Não é à toa que a Igreja é feita assim, com uma maioria de mulheres. Porque nelas está a força espiritual que tem como uma de suas manifestações o dom natural de gerar a plenitude da vida. Elas parem filhos. E da mesma maneira como geram filhos na carne, elas também geram ao interior de cada comunidade eucarística a plenitude da vida espiritual.

Quando o ser humano foi dividido no Paraíso e foram feitos varão e varoa, a divisão não foi equitativa: a mulher ficou com uma maior capacidade espiritual que corresponde fisicamente à sua capacidade de gerar vida. Quando os homens tornam-se sacerdotes, eles se aproximam da espiritualidade natural da mulher. Em muitos aspectos, o sacerdote imita a mulher. É o que se dá quando, tal como as mulheres, ele usa vestido e cobre a cabeça. Os Bispos, nos quais repousa a plenitude do sacerdócio, quando usam o mamdias, estão usando o manto da Virgem e trazem sempre ao peito ícone da Santíssima, isso como imagem exterior do sacerdócio da Igreja. O trabalho do sacerdote aproxima-se do mistério feminino, pois ele se empenha em gerar, pela vontade do Espírito Santo, a plenitude da vida espiritual. Plenitude que se tornou humanamente alcançável em virtude da Encarnação, Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto, existe todo um contexto de vivência misteriosa ao interior da Igreja que não tem como explicar - é apenas viver. Quando alguém coloca uma questão dúbia, néscia, como a possibilidade do sacerdócio feminino, não há resposta possível. A única coisa que podemos dizer, e aí vão dizer que somos políticos ou diplomatas, é: 'vem ver'. 'Porque as mulheres não podem ser sacerdotes na Igreja?' 'Vem ver'. Venha descobrir o mistério do sacerdócio que existe na Igreja. Sacerdócio que é de todo o povo e não só do bispo e ou do padre. Povo litúrgico que obra espiritualmente e que, normalmente, é constituído por um número maior de mulheres do que de homens. Se as mulheres não orarem, se elas não estiverem atentas, se não contemplarem o mistério que se passa no interior da Igreja, não temos Igreja. Podemos ter vinte bispos, catorze mil padres, que não temos Igreja. Só temos Igreja se tivermos lá um sacerdote, validamente ordenado é verdade, e toda aquela plêiade de mulheres que oram e que vivem o mistério da existência do homem neste mundo.

A possibilidade do homem deste mundo nascer para o mundo eterno só existe nas mulheres. Essa possibilidade está na feminilidade do sacerdócio da Igreja. Está na feminilidade da Igreja. Essa feminilidade é um ideal de perfeição e ser feminino é isso: entregar-se sem questionamentos ao Plano de Deus. A Santíssima Virgem Maria vai levar esta evolução, digamos assim, da humanidade, o seu mais alto grau. Ao ponto de, quando Deus vê que a humanidade está na pessoa de uma única mulher novamente preparada para o diálogo face a face, Ele se apresenta à esta humanidade, assumindo a nossa carne, a nossa natureza, tornando-se homem e nascendo desta mulher. Não foi em um sacerdote, não foi em um homem, não foi em um guerreiro, não foi em um profeta, e sim em uma mulher -- até para respeitar as leis da natureza que Ele próprio instituiu. Ele encarna e assume a Natureza humana a partir de uma mulher.

E, então, fica a Mãe de Deus como a imagem da Igreja, como aquela pessoa, feminina, dócil, que tem o poder e a força de gerar a plenitude da vida. A Santíssima Virgem Maria leva isto ao último grau, porque a vida que ela gera é o Deus-Homem. E por isto ela é a Santíssima Virgem, imagem perfeita da Igreja Cristo. E, segundo nossa fé e nossa tradição, é aquela que está mais próxima de Deus. Aquela que ultrapassou as Hierarquias angélicas. Temos o Verbo, o Cristo, como face da Santíssima Trindade, e à Sua direita a Santíssima Virgem Maria em um diálogo eterno com seu Filho em prol de todos os homens. A Mãe de Deus está acima de todas as hierarquias angélicas -- que são forças, são potências espirituais que rodeiam Deus e que O apresentam ao mundo hoje.

O que quero dizer, amados irmãos, é que a festa de hoje é eminentemente feminina. É uma festa do sacerdócio. E eu queria que todos soubessem que o sacerdócio é isto, os que servem no santuário junto com os que servem como fiéis. Estes últimos formam o sacerdócio leigo. E este sacerdócio leigo reside muito mais nas mulheres que nos homens. (A entrada da Santíssima Virgem Maria no Santo dos Santos é o símbolo vivo da realização do sacerdócio do povo)

No mundo, os homens acham que ser viril, ser másculo, ser guerreiro é o mesmo que desconsiderar Deus e agir por conta própria. É mais difícil para o homem ser dócil diante de Deus. Com as mulheres é diferente. Elas naturalmente sabem ser vasos de eleição e aceitam docilmente a proposta que Deus faz. Qualquer homem que queira ressuscitar para a vida eterna, tem de alguma maneira que aprender a viver como as mulheres vivem, gerando em si uma espécie de vida nova. Recebendo o dom da graça, que Deus derrama sobre Sua Igreja, para que homens e mulheres possam, desde já, usufruir o Reino futuro.

Se nós homens aprendermos a viver como as mulheres vivem, vivendo o mistério que paira na vida de uma mulher... Então, todos nós, homens e mulheres, pelo amor que Deus derrama sobre todos, ressuscitaremos na Vida Eterna com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Amém.

Transcrito por André

Revisado por Lucas Mesquita.